Rodrigo de Haro: um místico, um racional - Hora

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Diário da repórter07/10/2016 | 10h48Atualizada em 07/10/2016 | 10h59

Rodrigo de Haro: um místico, um racional

Em sua casa centenária na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, o artista recebeu o Diário Catarinense para uma conversa — não uma entrevista. Figura mítica, ele falou da infância, dos estudos, de arte e dos mestres que encontrou na vida 

Rodrigo de Haro: um místico, um racional Felipe Carneiro/Agencia RBS
A casa-ateliê de Rodrigo de Haro em Florianópolis Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

A casa onde o artista Rodrigo de Haro mora fica próximo à Igrejinha da Lagoa, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis.  Foi erguida em meados do século 19 quando o bairro era um pequeno vilarejo de colonizadores açorianos. Pergunto quão antiga é a casa, e a resposta é uma explanação sobre o mistério por trás dos alinhamentos na construção de igrejas. Casas construídas ao redor de templos cristãos, diz ele, seguem uma lógica mística.

Mítica é a própria figura de Rodrigo de Haro, 77 anos. Entre jornalistas, chega a ser quase temido. É que a inteligência e ironia fina podem fazer um repórter despreparado perder o rebolado. 

Ele recebeu a equipe do Diário Catarinense numa terça-feira úmida de outubro para falar da exposição Dos Arquétipos (O Poder das Imagens), que abre sexta (7), em Florianópolis.

Após a calorosa recepção, a primeira conclusão é que a fama não lhe faz jus. De Haro tem um olhar doce, ainda que os olhos pareçam enxergar dimensões além das quatro (as três do espaço que se vê e sente, mais o tempo) reconhecidas pela física clássica. Ele, não entanto, discorda veementemente do mito de que artistas operam num grau de sensibilidade maior ou tenham a capacidade de ver o que outros não veem.

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Em seu ateliê-sala de estar, pede para fechar a porta, pois o frio é um inimigo para quem tem asma. Livros, telas, tintas e pinceis são parte do cenário para uma conversa sobre beleza, arte, filosofia, religião e a cultura ocidental.

Conversa, há que se frisar. Não entrevista.

Ele faz questão que a repórter guarde a caneta e o bloco de notas e desligue o gravador. Faz questão de olhar nos olhos e de se fazer entender como um todo, não como mero entrevistado, apenas como o artista que abrirá a próxima exposição. Cita tantos filósofos e referências que a sensação que se tem é que não há nada que ele não tenha lido ou estudado. 

Livros e quadros entre paredes centenárias Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Aí estão trechos de mais de duas horas de conversa com Rodrigo de Haro:

O belo e a arte

Uma obra de arte pode ser bela mesmo não sendo bonita. Quando eu era menino, era obrigado a deitar cedo por causa da asma e gostava de ler um grande livro com as figuras de Goya. O belo nem sempre é bonito.

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

A comunicação é da natureza do homem. É uma necessidade. Toda a ação demanda reação. A reação de alguns é desenhar. Arte é comovente. Toca. E fica no repertório de memória.

Artista multifacetado

Não separo. Você é um pintor, um escritor, um artista plástico. É a mesma coisa.

Um artista que não frequentou a escola

Eu comecei a estudar tarde, porque tinha asma. Então eu ficava lendo. Vendo filmes. Lia português antigo, lia de tudo. E estava sempre junto com os adultos. Não era problema por ser criança.

Um belo dia, a notícia: está na hora de ir para a escola. Eu já tinha uns 11 ou 12 anos. Comecei então a estudar no Colégio Catarinense, em Florianópolis, e saí três anos depois, não sem repetir o ano duas vezes. Só fui bem em matemática quando estudei álgebra, porque usei a intuição.

Uma vez, tinha uma prova e eu fiquei na pracinha próxima ao colégio lendo Rainer Maria Rilke. Bateu sinal e nem vi. Perdi a prova e o ano. E nunca mais voltei para a escola.

Rodrigo de Haro e o fascínio pelas flores Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Os mestres

Estudei línguas e tive dois grandes mestres. Um deles foi Augustinho Silva, filósofo português. Eu tinha 17 anos, ele mais de 60. Só não tem um mestre quem não quer. Apensar de não ter ficado muito tempo na escola, tenho boas lembranças, em especial dois padres. Foi um deles que abriu as portas da ótima biblioteca do colégio. Lá conheceu grandes obras, uma delas Metamorfoses, de Ovídio.

Nunca o tédio. Inspiração vem quando se quer

Não tem nenhuma criança que não pinte. Eu via que o que segurava as contas em casa era o ofício do meu pai, que pintava todos os dias na edícula. Você sendo artista e estando em casa, sujando as mãos o dia inteiro, a inspiração vem. Apenas aprender / ensinar artes na escola e na universidade é limitante. Quem fica buscando inspiração é amador. Inspiração vem quando você quer. Lá na hora de pintar, você sabe o que pintar. Ou pinta ou escreve, nunca tem tédio. ¿Ai, não tenho nada para fazer¿. É a expressão mais imoral que eu conheço.

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

A civilização ocidental

A existência é uma experiência do sagrado que se expressa em epifanias. E se falo tudo isso não é porque sou religioso, mas um homem civilizado e educado na sociedade ocidental. Mão teríamos hospitais ou universidades não fossem as igrejas. Tenho aqui livros de todas as religiões — de magia até os evangelhos.

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

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