"Não acho que agredir minorias seja forma de fazer humor", diz ator do Porta dos Fundos - Hora

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Entrevista25/11/2016 | 15h52Atualizada em 25/11/2016 | 16h22

"Não acho que agredir minorias seja forma de fazer humor", diz ator do Porta dos Fundos

João Vicente de Castro fala sobre trabalho na novela "Rock story" e lembra a convivência com seu pai, o jornalista gaúcho Tarso de Castro

"Não acho que agredir minorias seja forma de fazer humor", diz ator do Porta dos Fundos João Miguel Júnior/TV Globo/Divulgação
Foto: João Miguel Júnior / TV Globo/Divulgação

Conhecido por seu trabalho no coletivo de humor Porta do Fundos e, mais recentemente, como integrante do time de apresentadores do programa Papo de segunda, do canal GNT, João Vicente de Castro faz sua estreia em uma novela. Seu personagem na trama das sete da Globo, Rock story, é Lázaro, empresário dos músicos Gui (Vladimir Brichta) e Léo Régis (Rafael Vitti) que tempera a ciranda amorosa em torno de Diana (Alinne Moraes). 

Em entrevista a Zero Hora, João Vicente, carioca de 33 anos, fala sobre suas diferentes frentes profissionais, os limites do humor, o momento político do Brasil, lembra seu pai, o jornalista gaúcho Tarso de Castro (1941 – 1991) — grande nome da imprensa nacional e um dos fundadores do antológico semanário carioca Pasquim —, e destaca sua ligação afetiva com o Rio Grande do Sul.

Você ficou conhecido como produtor e ator do grupo Porta dos Fundos, participa hoje de um programa de debates na TV e estrela uma novela da Globo. Em quais dessas frentes você se sente mais confortável?
Sempre fui sócio, ator e roteirista do Porta dos Fundos, mas nunca produtor. Não sou organizado a esse ponto. Todas as frentes são igualmente importantes. Cada vez mais, estudo e aprimoro o meu lado ator. Fazer programa de opinião é uma coisa bem difícil, no sentido de você conseguir começar e terminar seu raciocínio. É importante respeitar a opinião dos outros e, ao mesmo tempo, colocar a sua.

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O que o levou a atuar em uma novela, trabalho que costuma dar grande projeção e, como contrapartida, trazer cobranças?
Foi o convite ter vindo de pessoas que eu admiro, foi fazer um vilão, que eu nunca tinha feito, e foi também o fato de eu não ser freado pela possibilidade de uma crítica ou alguma observação negativa. Acho que ser imobilizado pelo medo é a pior coisa que pode acontecer na vida de qualquer pessoa.

A exposição do artista é permanente, como personalidade pública quanto pelo interesse de fãs e da imprensa por sua vida privada. Você já namorou mulheres famosas e hoje é uma figura muito conhecida. Como lida com o assédio?
A minha busca, nesse universo das celebridades, é ser cada vez menos celebridade e mais profissional. Ser mais visto pelo meu trabalho do que pelas minhas escolhas pessoais.

Você é um dos entrevistados do documentário sobre seu pai, Tarso de Castro, que está em realização pelos diretores gaúchos Leo Garcia e Zeca Brito. Tarso morreu quando você era garoto. Que lembranças tem da convivência com ele?
Lembro muito da voz dele, do afeto que a gente tinha um pelo outro, da relação muito próxima, de ele me levar a todos os cantos. Lembro do amor que tinha por mim. E acho que o amor que eu tinha por ele foi a coisa mais forte que eu já senti na vida. Éramos muito grudados. Até por ele saber que tinha uma doença, a gente se uniu muito, e acho que, de alguma maneira, eu também entendi isso.

Pode nos adiantar o que falou sobre ele no filme?
Contei muitas histórias. Não conseguiria lembrar agora, mas acredito que vai ser muito legal. Foi um depoimento muito sincero.

Em que momento você compreendeu a dimensão da figura do Tarso de Castro para a imprensa brasileira e o que ele representou como um tipo libertário, boêmio e autodestrutivo?
Fui assombrado, no melhor dos sentidos, pela personalidade do meu pai, muito incisiva no universo carioca-boêmio-jornalístico. O que me deixa um pouco triste é quando o boêmio e o autodestrutivo falam mais alto do que o talento, o charme e a importância para o cenário político da época. Meu pai era um sujeito muito inteligente, muito importante para a gente viver na democracia em que a gente vive.

Como você acha que figuras como o seu pai e a anárquica turma do Pasquim trabalhariam hoje em um cenário em que, em vez da ditadura militar, censura e repressão, vive-se sob ampla repercussão, vigilância e  julgamento das redes sociais?
Acho que as redes sociais trazem uma visão pouco sincera e pouco verdadeira do que existe. Acredito que quase nenhum deles teria rede social.

O excesso de patrulhamento prejudica o humor ou lhe dá mais combustível?Patrulha é importante. Não acho que no humor vale tudo e que oprimir e agredir minorias seja uma forma de fazer humor. Ter uma barreira ética faz com que você fique tentando achar brechas para não entrar no humor fácil. Você começa a fazer humor sobre coisas engraçadas. É mais difícil e mais interessante.

Que limite você nunca quis cruzar como humorista?
O limite de ser deselegante e fazer humor fácil.

Que cenário você projeta para o Brasil diante da turbulência política que fez crescer em todo o país forças com perfil mais conservador, como foi  demonstrado com os resultados das recentes eleições municipais?
Idealizo que as pessoas se deem conta de que não é pelo braço forte nem pela agressividade, mas pela educação, pelo debate, que a gente vai chegar a um lugar melhor para todos.

O fato de o Rio eleger um religioso como Marcelo Crivella para prefeito faz parte do processo democrático ou deve ser visto com preocupação?
A democracia tem que ser sempre respeitada, e torço para que o Crivella faça um bom mandato – o que eu duvido muito que aconteça.

Seu colega Gregorio Duvivier tem uma posição crítica ao processo de afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff e ao governo de Michel Temer. As manifestações políticas, assim como trabalhos individuais de integrantes do Porta dos Fundos em outros projetos, são questões discutidas em grupo?
O Porta dos Fundos tem um caráter de multiplicidade. O Gregório e eu temos um pensamento mais parecido, mas o Porta dos Fundos é uma democracia. Se a proposta for engraçada e fizer sentido, tudo certo.

Você costuma visitar seus parentes em Passo Fundo, onde nasceu seu pai? Qual sua relação com o Rio Grande do Sul?
Durante muito tempo, passava três meses por ano entre Passo Fundo e a fazenda de um tio em Pelotas. Foi lá que virei de esquerda, eu acho. Lá eu trabalhava no campo, aprendi a amar e a respeitar os animais. O Rio Grande do Sul tem uma cultura regional muito rica. Amo ouvir música gaúcha e sei imitar gaúcho muito bem. Tenho ido menos, porque tenho saído cada vez menos do Rio devido ao trabalho.

 
 
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