Morre William Peter Blatty, o autor de "O Exorcista" - Hora

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Luto 13/01/2017 | 15h41Atualizada em 13/01/2017 | 17h34

Morre William Peter Blatty, o autor de "O Exorcista"

O autor do livro e do roteiro do original de um dos clássicos do cinema de terror morreu na última quinta-feira, aos 89 anos, nos Estados Unidos

Morre William Peter Blatty, o autor de "O Exorcista" Social Book Shelves/Reprodução
Foto: Social Book Shelves / Reprodução
Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

clickfilmes@yahoo.com.br

Um enquadramento central. Uma enfermeira anda pelos quartos, apagando as luzes, cumprindo seu horário, é um dia comum num hospital. Ela mexe em seus papeis. O segurança senta em sua cadeira. O diretor corta para a enfermeira. Ela ouve algo. Vem do quarto 411. Ela olha o segurança sentado e decide ir averiguar. O segurança é chamado por um colega. O quadro se aproxima. Um fantasma sai em seu encalço. É com essa simplicidade que William Peter Blatty, diretor do terceiro filme da franquia O Exorcista e autor do livro e do roteiro do original, trabalha uma das cenas mais assustadoras do cinema de terror da década de 90. Seu apego pela fragilidade das pequenas coisas sempre pontuou suas obras.

Blatty morreu na última quinta-feira (12), aos 89 anos. A confirmação de sua morte veio pelo twitter do diretor William Friedkin, seu principal parceiro. Segundo a mulher do autor, ele sofria de mieloma múltiplo, um tipo de câncer no sangue, e estava internado em um hospital em Bethesda, Maryland (EUA).

O escritor não se ateve aos trabalhos literários em sua longa carreira, como também percorreu caminhos interessantes cinematográficos. 

Blatty trabalhou com Blake Edwards em quatro roteiros — o ótimo Um Tiro no Escuro, Lili, Minha Adorável Espiã, Peter Gunn em Ação e Papai, Você Foi Herói?  — e seu currículo era muito mais voltado para a comédia do que qualquer outro gênero. Sua afirmação como grande autor e escritor veio nos anos 70, no entanto, quando O Exorcista mudou o terror para sempre. 

Um pouco antes Blatty já havia colaborado no roteiro de A Última Esperança da Terra, do escritor Richard Matheson (sim, o mesmo de Eu Sou a Lenda), mas sua habilidade para o terror ainda era desconhecida no cinema. No livro, Blatty trabalhava aspectos filosóficos que separavam a fé e a ciência e brincava com a falta de fé de um padre. 

São trechos como "ele estava de pé na ponta da plataforma vazia do metrô, para escutar o barulho de um trem que acalmasse a dor que convivia com ele. Como sua pulsação. Ouvida apenas em silêncio" ou "o amor havia se tornado frito e, durante a noite, ele o ouvia assobiar pelas câmaras de seu coração, tal qual um vento perdido, uivando com suavidade" que alçavam Blatty na posição de locutor perfeito para o mestre William Friedkin fazer seu trabalho de câmera estupendo. O Exorcista é considerado até hoje como o melhor filme de terror de todos os tempos.

Foi outro romance seu que fez com que a carreira de Blatty no terror se impulsionasse um pouco mais, embora a grande audiência nunca foi sua fiel companheira: Twinkle Twinkle Killer Jane rendeu o filme A Nona Configuração, também dirigido por Blatty, que o fez ganhar um globo de ouro. O seu segundo (o primeiro havia sido O Exorcista, pelo qual ganhou um Oscar, igualmente).

Se a audiência nunca esteve tão junto com Blatty e sua reclusão midiática sempre foi imensa, a sua morte não poderia ter sido mais tristemente irônica: os veículos a noticiando um dia depois, após um tweet de Friedkin, seu grande amigo. Pelo menos, a sua morte foi honesta: ele nos deixou como viveu. 

 
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