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Mais revanchismo que feminismo06/01/2017 | 11h00Atualizada em 06/01/2017 | 13h39

Por que a nova onda de cantoras sertanejas está longe de ser feminista

Elas cantam uma "sofrência empoderada", mas não se engajam na luta pelos direitos das mulheres e, nas festas, comportamento é o mesmo 

Por que a nova onda de cantoras sertanejas está longe de ser feminista Charles Guerra/Agencia RBS
A goiana Marília Mendonça é apontada como o ícone da nova geração de cantoras sertanejas no Brasil, que busca espaço de forma coletiva Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

"Não venha, não / Eu vivo do jeito que eu quero / Não pedi opinião / Você chegou agora e tá querendo mandar em mim / Da minha vida, cuido eu... Folgado!" Os versos, cantados por Marília Mendonça em apresentação para 12 mil pessoas no Stage Music Park, em Florianópolis, na última semana do ano passado, foram trilha sonora para uma cena comum em baladas. A maneira com que as mulheres são tratadas — principalmente nesses espaços, onde o assédio é rotina — não é alterada pela onda de cantoras no sertanejo, que colocam a figura feminina no protagonismo, mas somente no palco. 

Enquanto duas mulheres cantavam fervorosamente a música "Folgado", da jovem cantora goiana de 21 anos, dois homens chegaram para dançar. Sem convidá-las, pegaram-nas pela cintura, arriscaram três passos ensaiados e, na sequência, tentaram beijá-las. A canção já era outra e eles continuavam insistindo, até que uma delas, mesmo contrariada, cedeu às investidas.

Quando os personagens masculinos dissiparam-se e as mulheres puderam, enfim, curtir, perguntei a uma delas se não se sentia desconfortável com aquela situação e se esperava que aquilo acontecesse mesmo com mulheres tentando cantar diferentes versões da sofrência. Sem identificar-se, ela respondeu que "era sempre assim". A estudante universitária de 22 anos ainda comentou que aprecia o momento atual do sertanejo feminino no Brasil, no qual "as letras contam a nossa versão", deixando claro que parece mais revanchismo do que feminismo.

Shows de cantoras sertanejas são sucesso de público por todo o país Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

Lá pela metade do show de Marília Mendonça, que compunha a programação do Festeja, um festival de música sertaneja que trouxe além dela a dupla Maiara & Maraísa, confirmou a expectativa da fã catarinense. A cantora disse que era comum as pessoas perguntarem se ela realmente havia vivenciado todas as situações descritas nas melodias. A resposta sobre uma espécie de "sofrência empoderada" foi taxativa: 

— Sim. Já passei por tudo. Por isso, hoje eu digo para vocês: hoje, nesse show, só não vale vomitar, chorar e ligar para o ex — anunciou Marília que, na sequência, foi ovacionada. 

Mas não por todos. Enquanto a sertaneja contava sobre uma de suas histórias de amor, traição e bebedeira, que marcam a maioria das músicas das mulheres que estão na cena atual, um homem que não devia ter mais do que 25 anos não hesitou em gritar:

— Cala a boca, sua gorda! — esbravejou. 

Cinco amigas que estavam próximas olharam-no com reprovação, mas ninguém contestou e, logo, voltaram a beber vodka com energético compartilhados em um baldinho de gelo, a cantar todas as músicas que tinham decoradas na cabeça e a fotografarem a si mesmas. Lá do palco, sem parecer importar-se com o tipo de comentário que, claro, dessa vez não ouviu, Marília destoava fisicamente do perfil de duas duplas femininas de sucesso: Maiara & Maraísa e Simone & Simaria, que tocariam no dia seguinte em Penha.

A goiana não é sarada, não usa salto alto, e aplica pouca maquiagem no rosto. Em outras oportunidades, já afirmara publicamente que é cantora, e não modelo. O vozeirão basta. Timbre que, inclusive, já lhe rendeu comparações com Roberta Miranda — que junto das Irmãs Galvão, de Inezita Barroso e, mais recentemente, de Paula Fernandes sempre garantiram a presença feminina no sertanejo. A diferença é que, não mais a partir de talentos individuais, agora elas buscam espaço de forma coletiva. 

Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

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QUEM SÃO E O QUE CANTAM AS TOP 5 SERTANEJAS DO MOMENTO

Apesar de ser conhecida como a "neném" da turma, Marília Mendonça é apontada como a figura que representa o novo sertanejo feminino, mas não feminista, porque a própria goiana rejeita tal título. Sem se dar conta, ela reforça o empoderamento das mulheres quando canta as músicas das colegas em seu show e reforça o talento de cada uma. Veja, abaixo, o que cantam as principais artistas desse cenário: 

Marília Mendonça: É a representação da sofrência. A música carro-chefe da carreira da goiana de 21 anos, que anteriormente compunha para outros famosos como Jorge & Mateus, João Neto & Frederico e Henrique & Juliano, é "Infiel". Antes, aos 12, ela cantava na Igreja, mas criou coragem para lançar um CD próprio que contemplasse as mulheres — maioria nas casas de música sertaneja. 

Maiara e Maraísa: As gêmeas de 28 anos naturais do Mato Grosso cantam desde o 12, mas só ganharam notoriedade quando compuseram para Jorge & Mateus e Cristiano Araújo. Depois, famosas por conta própria, passaram a cantar sobre traição, mas tendem a valorizar mais a pegação em suas músicas. O bar é o cenário principal das letras, prova é a canção "10%". Preferem valorizar seu próprio repertório ao fato de serem mulheres. Mas já interromperam um show no Acre no ano passado depois de avistar um homem agredindo uma mulher. Disseram que a apresentação era para exaltar as mulheres.  

Simone e Simaria: Conhecidas por serem as irmãs Kardashian brasileiras, a dupla baiana que estreou no forró e só depois foi ao sertanejo ensina como "tomar um pé na bunda" com o álbum "Bar das coleguinhas". Mais velhas que as demais, com 31 e 33 anos, têm um bordão conhecido que até pode ser sinal de algum empoderamento feminino: "chora, não, coleguinha!". Mas já disseram em entrevista ao jornal O Globo que, hoje em dia, a mulher está "pior" que o homem, em se tratando de traição. O grande hit é "126 cabides".

Naiara Azevedo: Mais da metade das músicas da cantora paranaense falam sobre bebida. Ela também aborda o potencial do álcool para que as mulheres sejam sinceras e, finalmente, possam dar o pé na bunda dos homens. A canção "50 reais" deixa dúvidas se Naiara é feminista: "Não sei se dou na cara dela ou bato em você", sobre ter visto uma traição. Colunista de ZH e feminista, Clara Averbuck analisou a situação.

Paula Mattos: Natural de Campo Grande (MS), a cantora de 26 anos é exceção no novo sertanejo das mulheres, porque canta sobre a vida romântica dos casais e sobre como pode ser bom estar apaixonada. "Que sorte a nossa" é o principal exemplo da linha seguida por ela. Mas o single As Botequeiras tende a aproximar-se das colegas. No entanto, a artista garante que as músicas não são "femininas" ou "papo de mulher" ou "papo de homem", mas são para todos. 

O CONTEXTO DO SERTANEJO DELAS

— 5 das 10 músicas mais ouvidas no Spotify Brasil entre novembro e dezembro de 2016 são de cantoras sertanejas: 1º "Eu sei de cor" (Marília Mendonça); 3º "Medo bobo" (Maiara & Maraísa); 5º "10%" (Maiara & Maraísa); "50 reais" (Naiara Azevedo) e "Infiel" (Marília Mendonça). Essa última ultrapassou o número de ouvintes mensais de Wesley Safadão. 

— Ranking do Youtube:
2015
1) Galinha pintadinha: 1,1 bilhão de visualizações
2) Anderson Freire (cantor gospel): 775 milhões de visualizações
3) Patati Patatá (desenho animado): 723 milhões de visualizações

2016
1) Marília Mendonça: 1,6 bilhão de visualizações
2) Maiara & Maraísa: 1,3 bilhão de visualizações
3) Henrique & Juliano: 1,2 bilhão de visualizações

Do camarote, público canta sem parar os hits de sucesso das sertanejas Foto: Charles Guerra / Agencia RBS

— Em 2015, só havia uma música de cantora sertaneja entre as 20 mais tocadas nas rádios ("Bem feito", de Thaeme e Thiago); Já em 2016, esse número passou para 5 ("Infiel", de Marília Mendonça; "10%" e "Medo bobo", de Maiara & Maraísa;  "50 reais", de Naiara Azevedo e "Piração", de Paula Fernandes. Os números são do Top 20 anual da Connect-Mix.

— Das 100 músicas mais tocadas em rádios brasileiras em 2015, as sertanejas respondiam somente por 5 hits. No ano seguinte, foram 15 canções, incluindo as participações, segundo a Crowley Analysis Broadcast.

— Top 100 do sertanejo - Deezer Brasil 

2015
1) Luan Santana
2) Zezé di Camargo & Luciano
3) Victor & Leo
4) João Bosco & Vinícius
5) Gusttavo Lima
6) Bruno & Marrone
7) Humberto & Ronaldo
8) Israel Novaes
9) Henrique & Diego
10) Eduardo Costa

2016
1) Maiara & Maraísa
2) Matheus & Kauan
3) Henrique & Juliano
4) Gusttavo Lima
5) Israel Novaes
6) Luan Santana
7) Simone & Simaria
8) Wesley Safadão
9) João Bosco & Vinícius
10) Marília Mendonça

Wesley Safadão
9) João Bosco & Vinícius
10) Marília Mendonça

 
 
 
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