Armazém Vieira abrirá somente para eventos em Florianópolis - Hora

Vai deixar saudades03/02/2017 | 10h30Atualizada em 03/02/2017 | 15h44

Armazém Vieira abrirá somente para eventos em Florianópolis

Prestes a completar 32 anos, bar localizado em imóvel histórico no Saco dos Limões continua sendo a sede da premiada cachaça Armazém Vieira

Armazém Vieira abrirá somente para eventos em Florianópolis Betina Humeres/Agencia RBS
Imóvel do Armázem Vieira foi construído em 1840 Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

As histórias dos fiéis clientes do Armazém Vieira renderiam um bom livro, como um retrato da boemia de Florianópolis nas últimas três décadas. Prestes a completar 32 anos (a data oficial é 14 de abril), o bar definido por clientes como "lendário" anunciou o fim das atividades no dia 31 de janeiro. Encerra um ciclo para abrir outro: o casarão tombado na esquina da Rua Aldo Alves, no Saco dos Limões, abrirá agora apenas para eventos esporádicos. Continua, no entanto, sendo a sede oficial da cachaça que leva o mesmo nome.

Nas redes sociais, a comoção foi grande: ¿O Armazém Vieira sempre foi o nosso templo¿, lamentou o jornalista e videógrafo Fernando Mansur. Também pelas redes sociais, o frequentador Bibi Souza disse que é como se Florianópolis fosse aos poucos perdendo os espaços que marcaram a cidade. Em sua página no Facebook, se dispôs inclusive a capitanear uma festa de despedida.

Em 2013, teve a fachada grafitada e a pintura coloriu o bairro Saco dos Limões por alguns dias, até ser removida Foto: Ricardo Wolffenbüttel / Agencia RBS

— O espaço continuará funcionando para eventos. Temos hoje um custo maior do que tínhamos há anos, e com menos lucro. A conta não fecha. Não dava mais para abrir o bar para não entrar nenhuma mosca — lamenta um dos sócios do Armazém, Wolfgang Schrader, 74 anos.

Abrindo o coração, Schrader enumerou questões como aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) da cachaça e a lenta e crescente crise econômica, entre outras, como decisivas para fechar o bar. Ao mesmo tempo, considera a decisão a mais acertada e diz que ele e o sócio, Renato Bollo, 71 anos, poderão agora dedicar-se à produção e distribuição da cachaça Armazém Vieira, listada como uma das 20 melhores do Brasil.

Imóvel de 1840 era comércio de produtos agrícolas e náuticos

A história do Armazém Vieira remonta ao ano de 1840, quando o prédio foi construído para ser entreposto marítimo na Baía Sul Florianópolis. À época, se comercializavam no local produtos agrícolas e náuticos, entre os quais a Cachaça da Ilha. Vários navegantes registraram em seus diários de bordo a compra da bebida.

Entre 1983 e 1985, o entreposto foi restaurado para abrigar a Adega e o Bar/Cantina Armazém Vieira, de Wolfgang Schrader e Renato Grasso Bollo, amigos que trabalhavam como engenheiros na Eletrosul. O imóvel foi tombado em 1984.

— Queríamos fazer alguma coisa nova em Florianópolis. A primeira ideia era produzir coletores de mel. Não deu certo. A segunda, era alugar o terreno do aeroporto e plantar bananas. Também não deu certo. A terceira era comprar um barco e virar pescador — conta Schrader.

Cachaça Armázem Vieira está entre as melhores do Brasil Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

Finalmente, optaram por vender cachaça. Compraram o casarão para ser a sede e armazenar o produto. A negociação de compra culminou com o tombamento do imóvel, um dos primeiros da cidade. Clétio Mauricio Rosa, o gerente querido de clientes e amigos do Armazém, foi contratado 15 dias antes de o bar abrir, e seguiu no cargo até 31 de janeiro.

—Somos dois sócios, mas no fundo somos três. Sem o Clétio não seria possível — diz Schrader.

Quando a água virou cachaça

O músico Luiz Henrique Rosa (1938 - 1989), ícone da bossa nova, foi o primeiro gerente do Armazém Vieira. E graças a ele o bar virou referência também em música.

— No começo usávamos a telemúsica. O Luiz Henrique Rosa, que vez ou outra tocava violão num banquinho, inspirou as primeiras atrações musicais. E foi evoluindo até as bandas de rock que fizeram história, como a Faraway, a Banho de Lua, a Crepe Suzette. E assim o bar virou casa de show — conta Schrader.

Além de música, o Armazém Vieira foi palco de peças de teatro, shows de humor (quando ainda nem era chamado de stand-up), apresentações culturais. Até casamento (os clientes brincam que lá, Jesus transformou água em cachaça) teve.

Noite de samba do Armazém Vieira Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

O bar foi também pioneiro na venda de chope, já que há algumas décadas poucos da cidade comercializavam, além de não ter cozinha, mas manter um cardápio enxuto e elogiado.

Em 2013, o Armazém Vieira teve a área externa grafitada, uma ação que envolveu artistas da cidade e provocou polêmica. A pintura permaneceu por alguns dias e depois coberta.

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