Conversa de meninas - Hora

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Crônica22/02/2017 | 05h55Atualizada em 22/02/2017 | 05h55

Conversa de meninas

Poucas coisas trazem tanta vida à cidade como o período de volta às aulas. Grupos de crianças nas calçadas, mães entregando filhos na porta das creches, pais aguardando nos portões do colégio. Ah! E os estudantes zoando dentro dos ônibus. Esse cenário é bom demais! Divertido, até! O que não é tão tranquilo assim são as mochilas cheias de coisas dividindo espaço nos corredores, batendo na gente, roçando pra lá, pendendo pra cá, no caminho de quem passa.

Por falar em peso de mochilas: tem alguém fiscalizando aquela lei estadual de 2010 que regula o peso máximo tolerável para o transporte do material escolar nas redes pública e privada do Estado de Santa Catarina? Pelo suor escorregando da testa dos baixinhos não...

Tem outra coisa interessante que se observa nessa época, as instigantes percepções dos adolescentes. Sim, pois o tempo de Confissões de Adolescentes (livro, peça de teatro, filme) é passado. É o que me faz pensar a conversa que ouço vinda do banco ao lado.

São duas meninas, uns 12 anos.

– Fiquei bolada. Não sabia que era gay.

A outra responde:

– Nem eu!

– Só que ela pode estar mentindo porque quer pegar ele também. MP!

Eu, acostumada com a sigla, me pergunto: o que o Ministério Público tem a ver com isso? Será que a garota está falando de encaminhar denúncia?

MP é mente poluída! Gíria de adolescente.

Danadinha essa menina, não? Refiro-me à que pode ter montado a estratégia de difamar o rapaz pelos corredores do colégio. Por sinal não um colégio qualquer: pela camiseta são do Instituto Estadual de Educação, o IEE, considerado o maior colégio da América Latina, com 5.640 alunos. Embora também esperta essa que, um pouco adiante, volta a falar:

– Tem uns meninos bem lindos na outra sala. É só rolar uma selva que tu esquece dele.

A menina, que devia estar triste pela suposta rival, diz:

– Irado.

E eu de novo: selva, o que é isso?

Descubro depois. Selva é festa em que todo mundo pega todo mundo.

Não é danadinha essa aí também? Primeiro semana de aula, já fez contatos e anda com o olho espichado pra outra turma. Por falar em olho: essa eu já sabia, pois uma amiga explicou que hoje elas, as meninas, não falam mais "cruzes, nada a ver, tá louco¿ quando acham um cara feio. Ela aprendeu com a filha, também adolescente: SOS, só o olho salva, quando o sujeito é muito feio.

Voltando para dentro do ônibus, que já sobe o morro:

– Cara, melhor ser gay do que bandido, corrupto, traficante.

Boa, menina!

– Animal – responde a outra em sinal de aprovação.

Sobre aprovar algo, tem salta uma pérola antes da próxima parada:

– Acho que meus gerentes não vão deixar eu ir na selva.

Nem presto atenção no que a outra responde.Como assim, menina? Que gerente? Que história é essa de "meus gerentes"?

Ah, tá bom: são os seus pais.

Hora de uma delas descer.

– Fui! tchau BFF?

Volto ao meu interior: BFF? 

– Best friend forever, melhor amiga para sempre.

Que sejam, meninas. E continuem trazendo vida à cidade...

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