"Legion" traz ao universo dos Mutantes ousadia narrativa e maneirismos hipsters  - Hora

Novidade na tela10/02/2017 | 08h51Atualizada em 10/02/2017 | 16h36

"Legion" traz ao universo dos Mutantes ousadia narrativa e maneirismos hipsters 

Série baseada em quadrinhos da Marvel estreou nesta quinta no canal FX

"Legion" traz ao universo dos Mutantes ousadia narrativa e maneirismos hipsters  FX / Divulgação/Divulgação
Dan Stevens vive David Heller e Rachel Keller é Syd Foto: FX / Divulgação / Divulgação
Carlos André Moreira
Carlos André Moreira

carlos.moreira@zerohora.com.br

O Youtube está cheio de vídeos amadores que partem da mesma premissa brincalhona: o que aconteceria se um diretor de cinema conhecido por um estilo tão marcante a ponto de virar cacoete dirigisse uma produção de gênero sem nada a ver com a carreira do indivíduo. E se Bergman dirigisse um filme do Batman? E se Woody Allen filmasse Harry Potter? Bom, se alguém aí alguma vez tentou imaginar, sabe-se lá por que motivo, o que aconteceria se Wes Anderson dirigisse uma produção de super-heróis, a série Legion, que estreou na noite desta quinta-feira no canal a cabo FX, é a sua resposta. E isso é ao mesmo tempo maravilhoso e um tanto preocupante.

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Desenvolvido pelo criador da série Fargo, Noah Hawley, Legion é uma produção teoricamente ligada ao mesmo universo em que se desenvolvem os filmes dos X-Men (a presença de Bryan Singer, diretor dos filmes da franquia, como coprodutor da série reafirma a conexão). O quanto as duas coisas poderão se misturar no futuro é uma outra história, mas de cara as diferenças são marcantes o suficiente para que Legion não se pareça com um filme dos X-Men estritamente falando. Aliás, esse á uma das características maravilhosas da série, Legion não se parece em definitivo com filme de super-herói algum realizado até aqui. (SE NÃO QUISER SPOILERS, PARE DE LER POR AQUI!)

Mais do que acompanhar os passos, a série praticamente transita pela mente de David Haller (Dan Stevens, de Downtown Abbey), um jovem que logo nas primeiras cenas, em uma colagem frenética de imagens ao som de Happy Jack, do The Who, atravessa uma infância e uma adolescência complicadas que culminam numa tentativa de suicídio por enforcamento para tentar silenciar as vozes que ouve continuamente.

Após o suicídio frustrado, David é diagnosticado como esquizofrênico paranoide e enviado para um hospício em que todo mundo parece menos um paciente e mais a plateia de um show do Arcade Fire. O nome do hospício, a propósito, é ¿Clockwork¿, um aceno ao título original de Laranja Mecânica (o seriado está cheio de referências espertas como essa para quem gosta de fazer esse tipo de pescaria). Lá, ele se encanta pela recém-chegada Sydney Barret (Syd Barrett, manja? Falei que estava cheio dessas coisas), vivida por Rachel Keller. Aparentemente, parte da psicose que a levou até ali é sua total aversão a ser tocada – mesmo quando ela e David se tornam oficialmente "namorados". As cenas do hospício se alternam com sequências no passado e com uma misteriosa sessão de interrogatório a que David está sendo submetido em algum momento no futuro. David também teve alucinações poderosas nas quais move objetos com a força da mente ou altera sutilmente a realidade.

Como estamos falando de uma série legada ao universo dos X-Men, é claro que as "alucinações" são, ao menos em parte, reais. David tem poderes telecinéticos e telepáticos, e está sendo mantido contra a vontade em uma base misteriosa talvez ligada ao governo. O incidente que o levou até ali: ao se despedir de Syd, que terá alta do hospital, enquanto ele ficará, David tasca na moça um beijo de surpresa, e aí a série enlouquece de vez, pondo suas cartas na mesa. O contato físico entre Syd e David faz os dois trocarem de corpos, e o horror de Syd em ficar para trás a faz acessar descontroladamente os consideráveis poderes de David, selando as portas das celas de um corredor inteiro, até mesmo com uma morte como consequência. Quando o efeito da transferência passa, David sai à procura de Syd para descobrir que ela aparentemente não existe, e é aí que cai nas mãos de seus interrogadores.

O que há de positivo neste cartão de apresentações de Legion é sua ambição. A alternância aparentemente aleatória entre tempos narrativos apresenta a história menos como um entretenimento e mais como um desafio. É uma escolha artisticamente elevada no momento em que a maioria dos filmes de personagens da própria Marvel – tanto as do estúdio próprio quanto as nas mãos da própria Fox – não arriscam muito, preferindo histórias lineares em que tudo precisa ser meticulosamente explicado para os que não conhecem a fonte original dos quadrinhos. Já Legion não é simples, não é linear, o vaivém e a repetição de situações são, mais do que esclarecedoras, uma boa representação do estado mental confuso de David. A forma como ele acrescenta algo novo em termos de estrutura ao universo um tanto morno das franquias de super-heróis é surpreendente.

Nos quadrinhos dos X-Men de onde o personagem foi retirado, Legião é filho do professor Charles Xavier, e mais de uma vez foi representado em conflito com o pai fundador dos X-Men. Sua psique fraturada por um trauma dividiu-se em múltiplas personalidades, cada uma com um poder diferente. Apesar da premissa interessantíssima de um mutante com assombrosos poderes mentais que também possui assombrosas instabilidades mentais, as histórias em que o personagem foi utilizado, em sua maioria, pertencem ao que de mais esquecível já se fez com os X-Men nos gibis. Legião é um personagem interessante por seu conceito, mas mesmo fãs radicais terão dificuldade em apontar uma grande história com sua presença. O que, de certo modo, reafirma a liberdade com que a série pode tratar o personagem – como os X-Men são uma boa metáfora para discussões sobre os diferentes e as minorias nos quadrinhos, a série acena com uma abordagem tangencial a isso, ao também levantar a discussão sobre o conceito de "normalidade" e o quanto os desvios psicológicos constituem eles mesmos parte da identidade de um ser humano.

Mas se em termos de estrutura e ousadia Legion é um refresco no panorama dos super-heróis, é no estilo visual, também radical, concedamos, que estão os desafios mais complexos a um espectador que quiser seguir a série. A menção a Wes Anderson lá em cima não é gratuita, já que a presença do cineasta parece estar em toda parte, na simetria exigente de alguns enquadramentos, no tom pastel predominante da fotografia e no uso abundante da trilha sonora – toda ela ótima, que fique claro, mas seu uso histérico por vezes parece um artifício barato para angariar a paixão do espectador, algo que fracassou inapelavelmente no recente Esquadrão Suicida, por exemplo.

Que os próximos episódios digam se Legion está mesmo a caminho de fazer história nas adaptações de quadrinhos ou se vai se tornar um maneirismo de vida curta.

 
 
 
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