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Carnaval 201703/02/2017 | 03h05Atualizada em 03/02/2017 | 03h05

Veja quais atrações tradicionais ficarão de fora da folia e o que dizem a prefeitura e o patrocinador

Especialistas apontam a falta de iniciativa por parte dos blocos, como a promoção de eventos durante o ano, para gerar recursos

Veja quais atrações tradicionais ficarão de fora da folia e o que dizem a prefeitura e o patrocinador Alvarélio Kurossu/Agencia RBS
No sábado de carnaval, a tradição e sair vestido de mulher ou homem pelo Centro da cidade Foto: Alvarélio Kurossu / Agencia RBS

Foi a partir dos anos 1960 que a folia passou a ser acompanhada por multidões. Segundo o pesquisador do carnaval Carlos Raulino, sambistas de todo o país comentavam que o carnaval daqui era uma boa surpresa. Segundo ele, chegou a ser considerado o segundo melhor do Brasil nos anos 1970 e 1980 por comentaristas e críticos da época.

Há até 10 anos, o carnaval em Florianópolis ocorria sempre nos arredores da Praça XV de Novembro. Os blocos de sujos priorizavam as marchinhas ou sambas. O sábado à noite era exclusivo para os desfiles das escolas, que contavam com até 4,5 mil integrantes. E os bailes gays ocorriam na região conhecida como Roma (na Avenida Hercílio Luz).

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—Sambas, marchinhas e marchas-rancho são as características do nosso carnaval tradicional e que estão em último lugar. Eu, como fundador de várias velhas guardas daqui, vejo com muita tristeza. A gente se dói porque trazem funk para as praças públicas. O resgate não está em primeiro lugar. Os concursos de marchinhas não são bem divulgados e só o que vem de fora é falado — critica o pesquisador.

Apelo popular o samba tem, ressalta Raulino — haja vista o sucesso do projeto Samba de Terreiro, que promove rodas de samba todas as terças-feiras na Escadaria do Rosário e, em três edições realizadas em janeiro, reuniu mais de 2,5 mil pessoas.

Berbigão do Boca, que completaria 25 anos em 2017, cancelou desfile  Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

— É preciso resgatar nossa tradição. É possível trazer coisas atuais, mas elas não têm a cara da nossa gente. O carnaval ainda está tentando sobreviver. É um dos piores momentos desde 1940 — lamenta Raulino.

O pesquisador também critica a postura de blocos e das escolas, que passaram a ficar dependentes de recursos públicos:

— Blocos pequenos não recebem incentivo nenhum. E os blocos maiores querem incentivos grandes demais. Não tem meio termo. Falta organização e a promoção de eventos durante o ano para que escolas e blocos não fiquem dependentes só do poder público.

Para Rodrigo Leifer, falta também  uma política pública eficiente de valorização da identidade:

— Depois da criação da Liga das Escolas de Samba, o recurso fica muito centralizado para as escolas, e outras atividades tradicionais ficam de fora. O patrocínio privado, para nós, manezinhos, acaba sendo um tiro no pescoço, porque nós não temos a tradição de trio elétrico. Pense o contrário: levar marchinha e escola de samba para Salvador, onde o  tradicional é o trio elétrico? — questiona.

O que perdemos em 2017

No ano passado, a prefeitura de Florianópolis contabilizou 42 blocos organizados — a contagem é feita a partir dos pedidos de estrutura, como banheiros químicos, grades, tenda etc. Este ano, apenas 12 blocos foram inscritos até ontem. Dentre as mais tradicionais, as principais perdas deste ano são:

¿ Concurso de música de carnaval (marchinhas)
¿ Concurso de rainha do carnaval
¿ Escolha da Corte do Enterro da Tristeza 
¿ Desfile do Berbigão do Boca
¿ Desfile da Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo

— A cidade está perdendo a alma. Não respira a própria cultura. É um crime cultural trazer funkeiros — opina o maestro André Calibrina, ex-presidente da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes e autor da famosa Marchinha do Mané (Ó lhó lhó lhó lhó. Sou manezinho mas não sou nenhum bocó...).

Concurso de marchinhas realizado em 2012, no Mercado Público Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS

Desde 1989, ele é quem organiza os concursos de marchinhas, promovidos um mês antes do carnaval no Mercado Público ou nos arredores da Kibelândia, na Rua Victor Meirelles, Centro. No auge, chegou a ter 88 composições inscritas.Para a pesquisadora Cristiana Tramonte, no entanto, o carnaval é uma manifestação cultural dinâmica.

— Transforma o tempo todo e abarca todos os setores sociais. É um universo de mil possibilidades — conclui ela.

O que diz a Secretaria de Turismo (Setur)

— A curadoria é feita pela própria Skol e eles têm a contrapartida de colocar banheiros e trazer um determinado número de shows nacionais. A Setur não determina se o show deve ser de A, B ou C. Mas precisamos rever, de fato. E vamos fazer isso a partir do ano que vem. Queremos um modelo para não onerar a prefeitura, que seja atrativo para o patrocinador, mas que tenhamos espaço para gestão compartilhada da curadoria. Queremos incluir o financiamento dos blocos — afirma o secretário de turismo, Vinicius de Lucca Filho.

Historicamente, blocos como o SOS e o Berbigão do Boca recebem recursos da prefeitura.

— Este ano não será investido. O que dá para fazer é ajudar. Fizemos uma normativa para saber quem precisa de ajuda e os blocos interessados devem entrar em contato. Enviamos projeto para garantir verba via o programa Funturismo, do Governo do Estado. Ficaremos como facilitadores — complementa o secretário.

O que diz a Skol

A assessoria de comunicação da Skol informou em nota que a empresa conta com a ajuda da Sul Entretenimento, produtora local contratada para auxiliar na escolha de artistas nacionais e regionais que tenham a ver com o público que frequenta o carnaval de rua de Florianópolis.

— Por serem produtores locais, eles têm competência e o conhecimento necessário para sugerir o que a população aprecia — afirma a nota.

DJ Alok se apresentará em Florianópolis no dia 19 em cima de um trio elétrico na Praça XV de Novembro Foto: Villa Mix Festival / Divulgação

Na programação deste ano estão um trio elétrico gratuito com o DJ Alok na Praça XV (dia 19), os shows nacionais de Ludmilla e Mc Koringa (dia 24), Os Hawaianos (25), Turma do Pagode e Mc Sapão (dia 26), Jota Quest e Melanina Carioca (dia 28). 

A empresa também divulgou as atrações locais: Grupo Apogeu (26) e apoio ao Bloquete & Calma Beth (27), com a participação de Fábio Dunk, Samba Aí, Dj Anão, Dj Coy, Dj Brunão, Dj Dyve e ao Pop Gay (27). Além disso, a Skol irá apoiar 26 blocos da cidade com estrutura (tenda, cerveja, freezer etc), entre os quais o Baiacu de Alguém.

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