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Nossa Área29/09/2016 | 07h48Atualizada em 29/09/2016 | 07h48

Primeira mestre de capoeira de Santa Catarina, Rosa Costa ginga para superar o preconceito

Professora tem mais de 30 anos gingando nas rodas da Grande Floripa

Primeira mestre de capoeira de Santa Catarina, Rosa Costa ginga para superar o preconceito Diorgenes Pandini/Agencia RBS
Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Rosa Cristina Costa respira capoeira. Com 48 anos, é professora em seis escolas de São José, onde dá aula para mais de 200 alunos dos 4 aos 70 anos, inclusive para pessoas com deficiência. Tem pesquisa de pós-graduação na área e viaja o Brasil para oficinas de batismo. Mesmo com toda essa vida dedicada ao esporte-luta-dança, foram 35 anos até que ela recebesse o título de mestre de capoeira, a única catarinense com essa distinção.

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Os alunos de Rosa, tanto da rede municipal como da APAE, participaram da cerimônia de graduação na última semana, quando a cidade recebeu o Encontro Nacional de Capoeira. O principal momento do evento foi quando Rosa trocou a corda vermelha e roxa de contramestra pela branca, a cor de mestre. Para a capoeirista, a história dela começa agora.

– Eu vou continuar fazendo o que eu já vinha fazendo, o envolvimento é que vai ser maior. Mas parece que agora é que eu vou começar a aprender tudo. A minha história começa agora. Eu estou mestre de capoeira, eu não sou mestre. Pra isso, ainda falta muita coisa. Daqui 30 anos, talvez – diz com humildade a agora mestre Rosa Predador.

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Apelido veio de um filme sinistro

O apelido, algo muito comum desde a origem da capoeira, surgiu quando ela voltava da Bahia em 2003. A atleta retornou com o cabelo trançado e os companheiros acharam parecido com o predador do filme de Hollywood. Só que apesar deste ambiente descontraído, a mestre Rosa revela que a capoeira ainda carrega um comportamento machista.

– É muito difícil uma mulher se tornar mestre, é sempre nesse tempo: 30 anos pra cima. O homem com 15 anos já se torna mestre. Pra mim, sempre existiu resistência até de pessoas que começaram junto comigo. Mas chega o momento em que não tem mais como protelar – explica Rosa.

Para a capoeirista, são várias coisas pequenas que fazem um colegiado de mestres ficar sem mulheres.

– É o fato de a gente chegar numa roda e ali ficarem podando a mulher de entrar, de tocar um berimbau. Aí a gente tem que ter postura e confrontar. Às vezes, a gente tem que mostrar uma atitude mais agressiva na roda, mostrar habilidade, que se é bom de queda, que se sabe bater um bom golpe – denuncia.

Capoeira é a profissão da mestre Rosa

Rosa começou a gingar aos 13 anos. Natural de Florianópolis, foi levada por um cunhado para assistir a uma roda na Berimbau de Ouro, a primeira academia de capoeira da Capital, com o pioneiro mestre Pop. Ela conta que depois daquele dia nunca mais desistiu da arte. Virou discípula de Pop, mas seguiu com outras atividades. Se formou pedagoga e professora de Educação Física. Desenvolveu trabalhos sobre a importância da capoeira na infância e traçou um perfil sobre a identidade de gênero dos praticantes.

Na década de 90, decidiu que era disso que queria viver e adaptou o esporte dentro das aulas. Então apresentou um projeto para ensinar capoeira na prefeitura de São José, e há 18 anos faz da arte sua profissão. Passou pelos grupos Nação, Au e o projeto Capoeira na Escola. O reconhecimento pode ter sido tardio por parte dos mestres, mas nunca pelos alunos dela.

Na APAE de São José, a professora baixinha e de voz grossa pode até parecer brava num primeiro momento. Mas é só os aprendizes abrirem a boca para falar sobre a instrutora que começam a se derreter.

– Comigo ela é de paz, é muito amor, carinho e amizade. A gente tem bastante intimidade. Ela merece tudo isso. Eu troquei a cor da corda (na semana passada) e agora sou um instrutor, e vou ajudar ela – promete o estudante Rodrigo de Sousa, 26, com síndrome de down e aluno de Rosa há 9 anos.

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

– Eu queria muito fazer capoeira. No dia em que conheci a Rosa eu disse ¿axé¿, e ela me respondeu ¿axé¿. Ela me deu calça e camiseta, e eu comecei aos pouquinhos a fazer capoeira. Hoje eu faço um pouco de tudo, estrela, ginga, cocorinha – comemora a menina Aimee Natali Biscolli, de 23 anos.

Na APAE, Rosa Cristina Costa conta que é o lugar onde faz diariamente a reflexão do trabalho e chega a se emocionar ao falar sobre eles. Revela que é lá onde aprendeu a sensibilidade da vida. A única mulher mestre de capoeira de Santa Catarina tem certeza que a distinção não veio por acaso:– Ela vai servir de base para muitas mulheres também chegarem à mestria e para muitos mestres perceberem mais a mulher como capoeirista – deseja.

Capoeira é esporte

Em fevereiro desse ano, o Conselho Nacional do Esporte reconheceu a capoeira e outras artes marciais como atividade esportiva. A decisão é importante, entre outros pontos, para que o Ministério do Esporte possa repassar recursos a confederações através do Bolsa Atleta. À época, o presidente do Conselho Federal de Educação Física, Jorge Steinhilber, comemorou a decisão:

– A capoeira tem competições e atividades importantes para o condicionamento físico. Crianças, adultos e idosos praticam a mesma para diminuir a obesidade e, principalmente, são atividades que têm federações e confederação. Já tinha aprovação do Conselho, mas ainda não havia a publicação do Ministério do Esporte.

Em 2014, a arte recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco.

 
 
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