Mercado de pôquer no Vale do Itajaí movimenta mais de R$ 5 milhões por ano - Esportes - Hora de Santa Catarina

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Jogo11/10/2016 | 08h34

Mercado de pôquer no Vale do Itajaí movimenta mais de R$ 5 milhões por ano

Diversos clubes surgiram na última década com o crescimento do esporte na região

Mercado de pôquer no Vale do Itajaí movimenta mais de R$ 5 milhões por ano Patrick Rodrigues/Agencia RBS
Boom do esporte na última década fez com que surgissem clubes em Blumenau e região. Foto: Patrick Rodrigues / Agencia RBS
O clima remete aos cenários cinematográficos que vemos no cinema e na TV. As mesas, cuidadosamente feitas com feltro, têm sobre elas um pendente de alumínio que garante uma iluminação específica, direcionada. A luz, modesta em boa parte do local, dá uma atmosfera que faz referência aos salões de faroeste norte-americanos em filmes com Giuliano Gemma e John Wayne, porém com um quê de luxuosidade. Quem olha para esse contexto nem imagina que o ambiente fica em um imóvel discreto, às margens da Rua Amazonas, no Garcia, e mais do que isso: recebe torneios de um esporte que movimenta só no Vale do Itajaí um valor que ultrapassa a marca dos R$ 5 milhões anualmente. Sim, estamos falando do pôquer.
 
A cifra milionária chama ainda mais atenção se levarmos em consideração o tempo em que o esporte está, de forma oficial, em atividade em Santa Catarina: apenas 10 anos. Tempo suficiente para o pôquer deixar de ser considerado um jogo de azar, passar a ser respeitado como um esporte da mente, e crescer ainda mais na região. Prova disso foi o surgimento de pelo menos sete novos clubes no Vale. Cidades como Pomerode, Itajaí, Timbó, Gaspar, Brusque, Indaial e, claro, Blumenau, receberam locais para a prática do jogo que não só alavancam o número de jogadores, como também garantem os sete dígitos de movimentação financeira, impulsionados principalmente por Balneário Camboriú.
 
O município do Litoral tem dois dos clubes que garantem o maior montante em premiação para os jogadores – em média R$ 2,5 milhões anuais – e como consequência são os que puxam para cima o resultado somado na região. Juntos, 4Aces e Akaza se aproveitam do mercado e de um pomposo público-alvo para tornarem a cidade a “Las Vegas” catarinense do esporte. Não à toa se tornou referência e polo de jogadores: grandes nomes do pôquer brasileiro como Kelvin Kerber — campeão do evento principal do Brazilian Series of Poker (BSOP) de 2016 — e Thiago Decano — campeão mundial em junho do ano passado — moram em Balneário. Rodrigo Garrido, outro nome importante, tem ligação com a cidade.

: : : Os donos das fichas estão em Blumenau

Embora tenha sido o primeiro município a batalhar juridicamente para conseguir legalizar o pôquer e com tradição no Sul do país, Blumenau está em segundo lugar quando se fala em movimentação de bufunfa – R$ 1,5 milhão anuais. Não que isso seja um demérito. A cidade vem em um crescimento constante do jogo e o gráfico crescente é motivado principalmente pelo momento do esporte em nível mundial, acredita Elwis Vicenti, proprietário do caçula dos clubes blumenauenses, a Rekop. O fato de o pôquer ser o segundo esporte que mais cresce no planeta — atrás apenas do MMA — é um fator que acaba trazendo impactos também aqui para a região. Tudo isso o motivou a deixar de lado o negócio da família, uma loja de móveis, para viver das cartas:
 
— Em Blumenau esse movimento está um pouco atrasado em comparação a outros locais, mas mesmo assim o crescimento é perceptível.


Elwis Vicenti, proprietário da Rekop, acredita que o mercado está em ascensão. (Patrick Rodrigues)

Legalização do jogo
  ajudou ascensão

 
Embora não seja regulamentado no Brasil como esporte — um projeto para colocar isso em prática tramita na Câmara dos Deputados há um ano — o pôquer é totalmente legal. Não há empecilhos para clubes que queriam se estabelecer e dá segurança para os jogadores, que sabem que estão praticando algo correto. Na opinião de Leandro Cerutti, diretor da Ajax, fundada em 2014, esse foi um dos pontos que garantiu a ascensão no Vale do Itajaí.
 
— Principalmente pelo fato de um grande número de jogadores ver o pôquer apenas como lazer, e não como uma possibilidade de ser lucrativo. Essas pessoas passaram a estar mais presentes nos clubes, o que garantiu esse crescimento em um curto espaço de tempo — explica Cerutti.


Para Leandro Cerutti, maioria dos jogadores joga o pôquer apenas por entretenimento. (Patrick Rodrigues) 

Responsável pela Associação Blumenauense de Carteado, a Abluc, Tito Feltrin aponta o contexto do pôquer como algo que atrai e prende os jogadores. Campeão brasileiro, fundador da federação catarinense da modalidade, ele viu todo o desenrolar do esporte em Santa Catarina e garante, com convicção, que o mercado não está saturado e que a tendência para os próximos anos é de crescimento.
 
— Grandes eventos, exposição na TV, tudo isso fez o pôquer explodir nos últimos três anos. Os jogadores sentem atração pelo jogo. A adrenalina, o blefe, as probabilidades, tudo conta. Obviamente a premiação dos torneios é um grande atrativo, mas o desafio intelectual é o maior fator de procura principalmente para os iniciantes — analisa Feltrin.
 
Crise trouxe impactos diretos
    ao mercado na região


A estimativa é de que só em Blumenau existam 2 mil jogadores que praticam pôquer regularmente. Nem todos, porém, o tratam como uma potencial fonte de renda. Boa parte do número de frequentadores dos clubes do Vale do Itajaí — que são os responsáveis pela soma milionária — usam o pôquer como um meio de diversão.

— Ou ele vai ao shopping, ou ao restaurante, ou vem jogar. Para muitos o esporte é uma opção de lazer — conta Leandro Cerutti.


Mercado milionário: pôquer movimenta mais de R$ 5 milhões por ano no Vale. (José Luiz Heleodoro) 

E por ser, na visão dos próprios diretores dos clubes, ligado ao entretenimento para boa parte do público, o pôquer também sofreu os impactos da crise econômica. A expansão vivida a partir de 2013 foi estagnada pelo cenário em nível nacional:
 
— Na maioria das vezes o jogo é tratado como lazer e não necessidade. O aumento do dólar afetou muito também, principalmente porque muitos jogam eventos online. Acredito que mudanças econômicas e a baixa da moeda norte-americana podem fazer o mercado melhorar.
 
Regulamentação do pôquer
está congelada na Câmara


Encabeçado por nomes importantes do pôquer nacional como Igor Trafane, presidente da Confederação Brasileira de Texas Hold’em, e André Akkari, campeão mundial, o projeto que pretende regulamentar o esporte no Brasil está parado na Câmara dos Deputados. Toda a movimentação política recente que envolveu o impeachment de Dilma Rousseff e a cassação de Eduardo Cunha demandou os esforços do Legislativo que não conseguiu dar prosseguimento ao projeto de lei.


Akkari é um dos responsáveis nos bastidores pela regulamentação do pôquer. (XComunicação, Divulgação) 

A ideia é garantir que o jogo tenha o mesmo apoio que outras modalidades no país e tenha mais facilidade para atrair a iniciativa privada para investimentos. Na opinião de Leandro Cerutti, esse projeto não pode ser confundido com outro que quer liberar novamente os jogos de azar no Brasil:
 
— Cassinos e bingos normalmente agregam o pôquer aos seus serviços e isso pode dar uma impressão errada aos menos informados.
 
No início de julho, outro projeto paralelo de autoria de Marco Antônio Cabral (PMDB-RJ), garantiu uma nova discussão em Brasília. A PL (5840/2016) pretende reconhecer os jogos da mente como esporte para capacitar o registro no Calendário Esportivo Nacional. O texto da matéria, nesse momento, aguarda parecer do relator da Comissão do Esporte.
 
 
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