A lageana que transformou uma dor familiar em projeto para atender pacientes com câncer - Geral - Hora de Santa Catarina

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Donna+16/09/2016 | 15h50Atualizada em 18/09/2016 | 11h10

A lageana que transformou uma dor familiar em projeto para atender pacientes com câncer

A lageana que transformou uma dor familiar em projeto para atender pacientes com câncer Diorgenes Pandini/
Neusa Lopes criou a Casa de Apoio Colibri, em Lages, após perder a filha para o câncer Foto: Diorgenes Pandini

Rafael Dias, Especial 

Dor é algo que não se dissipa, marca. É como uma ferida na alma, que lateja ou amansa com o tempo. Disso Neusa Lopes, 77 anos, sabe bem. Desafiada por um revés pessoal, conseguiu transformar tristeza longa e profunda em missão. Da ausência, multiplicou aconchegos e sorrisos. Das memórias pela perda da filha que nunca se apagam, extraiu a regeneração de outras vidas. E, de alguma forma, aquelas lembranças que ainda lhe ocorrem passaram a doer menos. Isso porque o sentimento, antes uma vivência sua muito íntima e particular, passou a ser partilhado com orgulho por toda uma cidade e região.

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Há 13 anos, a administradora de empresas Neusa Maria Lopes de Oliveira preside a Casa de Apoio Colibri, entidade que dá suporte fundamental a pacientes em tratamento de câncer, vindos da região do Planalto Serrano, além do Meio-Oeste e Sul de Santa Catarina. Até então, a unidade atendeu mais de 4 mil pessoas.

Projeto totalmente voluntário, de caráter privado e interesse público, a casa de apoio nasceu de um objetivo simples, porém nobre. Oferecendo acomodação, refeições diárias cinco vezes ao dia, serviço de lavanderia, além de apoio psicossocial, a associação serve não apenas como alojamento para a estada de pacientes com câncer e familiares e/ou acompanhantes – no período de 2 dias até 2 meses, a depender da duração das sessões de químio e radioterapia – como também para acolhimento afetivo num momento de fragilidade emocional e física.

– Muitos pacientes sobem a serra para fazer tratamento em Lages, todos de condição financeira bem variada. Eles são encaminhados do hospital e, dessa forma, acolhemos. Aqui recebem atenção de psicóloga, nutricionista e contam até com transporte para as sessões de radioterapia. Eu me sinto muito feliz de vê-los acarinhados e bem alimentados – diz a fundadora da casa. Ela explica que a Colibri conta com a parceria do Hospital e Maternidade Tereza Ramos, cujo setor de oncologia é referência na região.

Estar no lugar do outro – ou tentar se posicionar de modo a refletir sobre o que o outro sente – é um diferencial por trás dos que fazem este lar. O projeto nasceu desse anseio no dia 23 de maio de 2003, após reunião articulada pela dona Neusa com outras 12 mães. Em comum, todas haviam sentido na pele a perda de um filho, a maioria pelo câncer. Desse encontro, surgiram choros, lembranças e novamente a dor. Mas foi ali, junto com algumas delas, que dona Neusa, como é chamada carinhosamente por colaboradores e doadores, deu o pontapé no projeto já no dia seguinte.

De início, a Colibri era uma casa pequenina perto do hospital, com apenas seis leitos. Saltou, em apenas seis meses, para o dobro da capacidade, em outro imóvel alugado na mesma rua.

Na parede, tela retrata a filha Mara, inspiração de Neusa  Foto: Diorgenes Pandini

– Havia uma necessidade muito grande de quimioterapia. Os pacientes vinham de cidades de fora da região e também do interior trazidos pelo transporte de secretarias dos municípios. Presenciei muitos esperando até o último deles acabar a sessão, sentadinhos e tristes, com pouca alimentação. Percebemos, então, que o abrigo era ainda pequeno – lembra.

Abraçada por médicos e profissionais do Tereza Ramos, além de mães, doadores e instituições, a entidade cresceu rapidamente em um tempo relativamente curto. Um grande desejo, por exemplo, era ter uma sede própria. Foi graças à decisiva doação de Vilma Carrilho, primeira mulher médica de Lages, que elas conseguiram um terreno para a construção do prédio atual, na Avenida Belizário Ramos, nº 1.501, em funcionamento desde 2009. A casa já chegou a atender pacientes em tratamento de hemodiálise, hoje é exclusiva de pessoas com câncer.

– Hoje não temos vagas para outras patologias, mas estamos ampliando a capacidade. Com verba da Secretaria da Saúde de Santa Catarina, construímos a sede e agora estamos fazendo o terceiro pavimento. Por isso, precisamos prestar contas todo mês – conta a secretária da instituição Nilva Silveira, 63, professora aposentada do magistério, natural de Lages, que se dedica integralmente à casa há oito anos.

Hoje a infraestrutura, moderna e ampla, tem dois pisos. Ao todo, conta com 30 leitos (acessíveis a pessoas com deficiência ou dificuldade de locomoção), 12 quartos para acompanhantes, sala de estar, cozinha, refeitório, lavanderia, rouparia, duas salas para recreação e terapia, além de um anexo, construído por meio do prêmio concedido pelo Programa de Eficiência Energética da Celesc, onde são realizadas oficinas de trabalhos manuais. E o espaço não para de se expandir. Um novo andar, em construção, deve ampliar a capacidade para 36 leitos até dezembro deste ano.

Espaço de aconchego 
Emocionada várias vezes durante a entrevista, dona Neusa revela uma dor persistente ao falar no nome da filha, Mara Delminda Lopes, falecida há exatos 15 anos em decorrência de um câncer no cérebro. Ela recorda um fato que a motivou a seguir adiante na luta diária enquanto voluntária e presidente da Casa de Apoio Colibri. Segundo a presidente da entidade, foi uma ¿intuição divina¿ que a fez prosseguir com a decisão de fundar o espaço.

Terapia ocupacional na Casa Colibri Foto: Arquivo pessoal

– Quando inauguramos a casa de apoio, aconteceu algo que me tocou muito. Uma das primeiras pacientes do abrigo veio com uma filha de acompanhante, e essa filha disse se chamar Mara. Isso me trouxe uma emoção muito grande. Era como se a minha filha me dissesse: o ¿caminho é esse, siga por aí¿. Por isso que digo que a casa de apoio é uma inspiração divina, não minha – relata.

Durante a doença, Neusa ficou cinco meses seguidos com a filha em um hospital em Porto Alegre. Mara Delminda faleceu aos 41 anos de idade, um ano após descobrir um câncer no cérebro por meio de um exame de tomografia. Queixava-se de muitas dores de cabeça.

– Lembro que minha filha dizia que, se superasse aquilo tudo, queria fazer um trabalho junto com quem tem câncer. Aquilo ficou na minha cabeça – relembra a mãe.Mantendo contato próximo com os pacientes do abrigo (visita três vezes por semana), dona Neusa cuida da parte administrativa, além de observar necessidades operacionais do dia a dia, junto a uma eficiente diretoria, composta por secretaria, tesouraria e conselho consultivo. Embora seja uma tarefa da qual não se furte, às vezes o ambiente a deixa vulnerável.

Palestra entre pacientes e psicóloga  Foto: Arquivo pessoal

– De início, foi muito difícil para mim. Eu acabo revivendo o calvário que foi essa doença. Mas sempre foi uma forma de estar com a minha filha. Apesar de me comover, me sinto gratificada.

Nascida em Lages, Neusa Lopes sofreu outra grande ausência. Ainda criança, aos seis, perdeu sua mãe para a tuberculose. Hoje tem seis netos (três são filhos de Mara) e seis bisnetos. Além disso, criou outros dois filhos, João Argon Preto Filho e Paulo Roberto. Em janeiro do ano que vem, ela comemora 60 anos de casamento com o arquiteto gaúcho João Argon Preto de Oliveira.

– Fiz faculdade de administração junto com a minha filha Mara. Estudamos na mesma sala. Tenho certeza de que, se estivesse aqui, ela estaria fazendo algum trabalho dentro da instituição.

Tamanho empenho é convertido em alívio aos pacientes acolhidos. O professor aposentado Geraldo Kock, 60 anos, é um dos que recebem atenção e carinho da equipe de 25 voluntários da casa. Alojado desde o último dia 28 de julho para fazer sessões de rádio, ele faz tratamento contra um carcinoma nos tecidos moles da cavidade do tórax diagnosticado este ano. Em janeiro, foi submetido a uma cirurgia e ainda este mês deve voltar para casa, em Presidente Getúlio, município a cerca de duas horas de carro de Lages. Quer logo voltar a ficar perto da esposa, mas não dispensa o ato das pessoas que o cuidaram como um parente.

– Aqui é como se fosse uma família. Todo mundo se ajuda. E as pessoas que administram a casa nos dão tudo, desde alimentação, moradia até transporte para o hospital – atesta o paciente.

Ele encarou a rotina diária de sessões quase ininterruptamente. Há alguns dias, no entanto, ficou debilitado. Sem a companhia de um parente no quarto, Geraldo diz ter recebido imediata ajuda da equipe na casa, o que foi fundamental, segundo ele, para que fosse levado rapidamente ao pronto-socorro. Ainda que não tenha em seu quadro um corpo médico, a entidade dispõe do auxílio de técnicos de enfermagem para pequenos procedimentos ou encaminhamentos à emergência. ¿A atenção dada aqui é muito boa¿, avalia.

Pacientes jogam dominó após a aplicação de medicação Foto: Arquivo pessoal

Boa parte da renda para a manutenção da Casa de Apoio Colibri é oriunda de projetos culturais. Por ano, a direção organiza dois eventos: um deles, no primeiro semestre, é o jantar dançante, e o outro é o café colonial. Este último deve ser realizado no próximo dia 12 de novembro, na Associação Atlética Bando do Brasil (AABB) de Lages. Outra forma de arrecadar dinheiro é a partir do artesanato (soft bordados, panos de prato, toalhas, entre outros) produzido pelas próprias voluntárias, vendido em eventos e também no expositor fixo na sede. Ao todo, são oito mães que se reúnem na oficina da entidade sempre às quartas-feiras para produzir as peças.

– As pessoas de uma forma geral nos ajudam muito. Também temos um brechó infantil aqui dentro. E com isso tiramos um recurso razoável – comenta dona Neusa.

Ela vê a iniciativa render frutos. Não somente a ação em si, mas também a reunião das mães que originou a entidade, essa continua em atividade, tornando-se um espaço para elas trocarem experiências e se acalentarem em meio à dor.

Informações e doações:
Casa de Apoio Colibri
Av. Belizário Ramos, 1.501, Copacabana, Lages
(49) 3227-0799

 
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