"A paz é disseminada quando os ativos trazem os sensíveis para dentro do círculo", diz filósofa que organiza o Fórum Mundial da Paz - Geral - Hora de Santa Catarina

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Entrevista22/09/2016 | 10h21Atualizada em 22/09/2016 | 11h27

"A paz é disseminada quando os ativos trazem os sensíveis para dentro do círculo", diz filósofa que organiza o Fórum Mundial da Paz

Dulce Magalhães, 50, explica o funcionamento das rede de paz, o trabalho dos peacemakers, o contexto local de promoção da cultura da paz, e ainda dá dicas de como aplicar esse comportamento no dia a dia

"A paz é disseminada quando os ativos trazem os sensíveis para dentro do círculo", diz filósofa que organiza o Fórum Mundial da Paz Betina Humeres/Agencia RBS
Na tarde de quarta-feira, 200 dançarinos participaram de um flash mob pela paz no Centro de Florianópolis Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 72 conflitos armados estejam em andamento no mundo, sendo 47 motivados por questões religiosas. Para conectar as 485 organizações não governamentais (ONGs) que atuam pela disseminação da cultura de paz no mundo, especialmente as 30 redes existentes no Brasil, é que ocorre no Centro de Eventos Governador Luiz Henrique da Silveira, em Florianópolis, o 10° Fórum Mundial da Paz. A responsável por trazer o evento pela primeira vez à América é a filósofa Dulce Magalhães, 50 anos, natural de Curitiba, mas radicada na capital catarinense desde o início dos anos 2000, quando se especializou na formação oferecida pela Universidade Internacional da Paz (Unipaz). 

Flash mob com 200 dançarinos de 60 países marca início de Fórum Mundial da Paz em Florianópolis

– Sou tecelã. Faço a conexão entre as redes de paz no mundo. Só transformamos realidades por meio do encontro. E pretendemos, com o evento, fomentar a rede na América do Sul – define Dulce, que também é coach em maiêutica, um método socrático que consiste na multiplicação de perguntas, induzindo o interlocutor na descoberta de suas próprias verdades.

Moradores estendem bandeiras brancas e pedem paz no Morro do Horácio, em Florianópolis

O fórum começa hoje e segue até domingo, no Centro de Eventos Governador Luiz Henrique da Silveira, na capital catarinense, e deve reunir cerca de 1,8 mil participantes de delegações vindas de 60 países. Organizado desde 2007 pela Schengen Peace Foundation com o respaldo da ONU, o evento já passou por Luxemburgo, Alemanha, Romênia e Egito.

No Brasil, a proposta é conectar os chamados peacemakers, os 5 milhões de promotores da paz que atuam em 485 organizações pelo mundo por meio de discussões, palestras e intervenções artísticas. Ecologia, direitos humanos, migração contemporânea e religião são algumas das temáticas que serão abordadas.

Florianópolis vai sediar Fórum Mundial da Paz em setembro

As inscrições ainda estão abertas e podem ser feitas hoje, às 15h, no local do evento. Os preços sugeridos são R$ 485 para adultos e R$ 240 para jovens, mas a organização garante que as pessoas podem pagar o que puderem. 

Dulce Magalhães Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS

Em entrevista ao Diário Catarinense, a ativista explica o funcionamento das rede de paz no mundo, o trabalho dos chamados peacemakers, o contexto local de promoção da cultura da paz, e ainda dá dicas de como aplicar esse comportamento no dia a dia. Confira:

De que forma estão articuladas e como funcionam as redes de paz no mundo? Qual é a realidade de Santa Catarina nesse contexto? 

Há redes transversais que conversam sobre o tema, como ecologia, direitos humanos e proteção aos animais, que quando convocadas também atuam com a cultura de paz. Mas há as ONGs que promovem especificamente a paz. Nós temos 485 registradas no mundo. Estamos falando de um contingente de mais ou menos cinco milhões de pessoas que estão dedicadas diretamente com o tema. No Brasil, há cerca de 30 mapeadas, mas acreditamos que exista muito mais. Em nível local, não há esse levantamento, apesar de estarmos tentando mapear pequenos grupos que não estão no radar da ONU. Mas há muitas iniciativas por aqui, como o Instituto Paz e Mente, o Instituto Tibetano, ONGs católicas e evangélicas e até a Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais] se encaixa nesse contexto, porque trabalha com inclusão, cooperação, laços e redes. Florianópolis está no mapa do mundo para a promoção da cultura de paz, porque nós temos muito ativistas aqui. A cidade atrai pessoas por várias razões, mas dentro de um padrão de mentalidade de qualidade de vida, por exemplo, que faz com que naturalmente elas se envolvam nesses movimentos e façam um belo trabalho.

Como é o trabalho dos peacemakers?

Eu faço parte de um grupo de 80 lideranças de paz que é coordenado pelo ex-presidente [dos Estados Unidos] Bill Clinton. Estamos há seis anos trabalhando em um projeto de cultura global de paz que passa por um processo de educação. E neste fórum especificamente nós temos uma proposta de política pública que vamos começar a trabalhar a partir do dia 26 de setembro ao enviar para a ONU e depois começar por Florianópolis o projeto 1% para a paz. Então de tudo o que a cidade de Florianópolis investe para o combate à violência, como polícia, presídio e armamento, 1% desse montante será revertido na educação de paz. Especialmente treinando professores para desenvolver uma tecnologia de transformação de conflitos, e também mediação, comunicação não violenta. Nós treinaríamos esses professores e eles multiplicariam em suas escolas. Ao final do ano, um projeto prevê uma medição desses resultados e nós podemos verificar o impacto disso. Se o esperado for atingido, o governo então passa a investir 2% no ano seguinte e assim sucessivamente. Nós queremos inverter a lógica. Nós queremos que ao longo dos anos o governo invista mais em cultura de paz do que em violência. E, se não começarmos com 1%, nunca faremos isso acontecer. O fórum está acontecendo em Florianópolis justamente para que o trabalho desses articuladores seja efetivado. Trabalhamos há 70 anos, quando começamos a ter estatutos de paz, com a sensibilização. E também diretamente nas comunidades, especialmente aquelas de risco. Nesse exato momento, nós temos 72 conflitos armados registrados, sendo que 47 deles têm causa religiosa. 

O que mais impede a predominância da paz no mundo atualmente?

É a mentalidade humana. Quando falamos em cultura, falamos de paradigmas, de modelos mentais. Um conflito é criado pela forma com que as pessoas pensam, sentem, vivem. Esse conflito pode ser dissolvido quando eu passo a pensar diferente. Nós temos hoje um desafio global, que é o tema dos refugiados. O Brasil é o quarto país a receber refugiados no mundo e temos muitos embates em função disso. O país vive uma miopia. Porque somos fruto dessa miscigenação. Nós somos todos refugiados. O programa de formação de dois anos que participei na Unipaz mudou o meu destino. Sinto que vivo outra realidade porque percebo a realidade de forma diferente. E por isso, vendo diferente, eu criei novas condições para mim. Então é isso que nós temos procurado trabalhar com as pessoas. Muita gente fez transformações profundas de vida, entrando em um caráter mais vocacional, humano e feliz. 

Como a cultura da paz pode ser disseminada?

Quando a gente quer provocar uma mudança, precisamos primeiro criar o que chamamos de grupo de fundamento. Capacitar pessoas pensantes para atuar nessa cultura. Criar ativistas, os peacemakers. Porque esse trabalho passa muito pelo processo de educação e vivência. Aí temos um segundo grupo, que é o dos sensíveis, que envolve a sensibilização. Há pessoas que já estão sensíveis à cultura de paz e dizem: 'eu quero um mundo de paz, quero viver uma vida mais tranquila, eu quero não ter medo nenhum.' Elas buscam respostas, mas não sabem o que fazer. Então a gente promove eventos como o fórum, porque essas sensíveis virão, vão conhecer tecnologias e metodologias, e vão começar a aplicar. Elas se tornarão ativistas e a gente aumenta o círculo por meio do encontro. Ainda tem um terceiro grupo, que seriam os indiferentes, aqueles que sustentam o status quo. São os que estão vivendo a realidade como ela está e dizem: 'o mundo nunca vai mudar. É assim mesmo. Que bobagem isso de falar em paz.' Só que essas pessoas não compreendem que mudança de paradigma se dá através da sensibilização e da ativação para uma determinada cultura. A paz é disseminada quando os ativos trazem os sensíveis para dentro do círculo, e os sensíveis sensibilizam os indiferentes, que se tornam sensíveis e, em algum momento, se tornam ativos. Até que grande parte da população seja ativa na promoção da paz. Quando estamos em contato é que nos transformamos. 

Quais são as tuas recomendações para viver a cultura de paz no dia a dia?

Há três recomendações que qualquer pessoa pode fazer, porque não depende de equipamento ou capacitação especial. A primeira é conseguir entrar em um estado de silêncio, que não é não pensar, mas não manter os pensamentos nocivos. Um minuto sem esses pensamentos de preocupação, pensar em coisas boas, no aqui e no agora fazem uma diferença enorme na nossa saúde, em todos os níveis. O outro exercício que eu considero fundamental está relacionado à gentileza, porque o sintoma da paz é a gentileza. Então devemos cultivar a gentileza em todos os momentos e frente a qualquer desafio para atingir um estado de paz. A terceira recomendação é que as pessoas não tolerem aquilo que as irrita, que as atrapalha, não tolerem a dor. Isso significa buscar uma solução, porque ela existe. Buscar aprender a lidar com isso, seja por terapia, por conversa com amigos ou o que for. São exercícios de mudanças aqueles que nos colocam frente a frente as nossas inquietações. Se não confrontarmos isso, vivemos uma vida não pacífica, porque achamos que o mundo é assim. Mas o mundo não é assim. Nós estamos assim, porque nós não estamos aprendendo a ser diferente. Quando estamos em paz, levamos a paz para o mundo. 

 
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