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Acessibilidade21/09/2016 | 09h31Atualizada em 21/09/2016 | 09h31

Evento discute nesta quarta os desafios para a acessibilidade na sociedade brasileira na UFSC

Universidade teve ações para facilitar a mobilidade no campus que foram reconhecidas pelo MEC. Ainda assim, alunos que vivenciam as dificuldades indicam necessidade de avanços

Evento discute nesta quarta os desafios para a acessibilidade na sociedade brasileira na UFSC Marco Favero/Agencia RBS
Foto: Marco Favero / Agencia RBS
Ângela Bastos

– E agora, Clodoaldo?

Perguntaram milhões de brasileiros com os olhos voltados para o Estádio do Maracanã. Naquele momento, noite de 7 de setembro, o paratleta Clodoaldo Silva seguia sozinho e abaixo de chuva em cadeira de rodas para acender a pira olímpica. Uma enorme escada dificultava o acesso dele até a chama. De repente, degraus se transformaram em rampa

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O nadador, medalhista de ouro em cinco participações em Paralimpíadas com direito a uma prata na Rio 2016, protagonizava uma lição inclusiva que botou o país a refletir. Não precisamos ter escadas e rampas, mas somente rampas, pois todos conseguem se locomover sobre elas.

Esse conceito de que inclusão é para todos porque somos diferentes estará em discussão hoje, Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O evento ¿Experienciando a Acessibilidade¿ é aberto e discute temas como normas de acessibilidade da ABNT, autismo na vida adulta, software de comunicação alternativa Tobii, inclusão escolar de crianças com deficiência.

A Coordenadoria de Acessibilidade Educacional (CAE) trabalha com 200 alunos com deficiência e é responsável pela organização. O objetivo é estimular a garantia dos direitos dos estudantes com deficiência, ajudando a difundir os princípios de inclusão em diferentes atividades. Parte desse trabalho é feito por bolsistas dos cursos de Pedagogia, Psicologia, Fonoaudiologia e Antropologia.

Coordenadora do CAE, a pedagoga Bianca Costa Silva de Souza explica que são 16 acadêmicos a atuar diretamente com estudantes com deficiência em diversos cursos da UFSC, com atenção às especificidades: cego, surdo, cadeirante, autista. A UFSC integra o Programa Incluir, do Ministério da Educação (MEC), criado em 2005. O objetivo é promover ações para eliminar barreiras físicas, pedagógicas, de comunicação para pessoas com deficiência. Com isso, assegurar o acesso e a permanência nas Instituições Federais de Educação Superior. 

Apesar do Programa Incluir, ainda há desafios em todas as universidades brasileiras. Foi o que constatou uma consultoria do MEC realizada ano passado. O maior deles parece ser o de criar uma cultura de inclusão capaz de derrubar as barreiras.

Assim como parte da sociedade, as universidades não estão totalmente preparadas a lidar com pessoas com deficiências. Para pessoas cegas, surdas e que usam cadeiras de rodas, por exemplo, pequenos detalhes fazem diferença. A visão limitada, a impossibilidade de ouvir ou mobilidade reduzida desencorajam muitas pessoas que acabam desistindo de estudar. A UFSC teve uma boa avaliação e foi destacada a política de acessibilidade.

Clodoaldo na abertura das Paralimpíadas do Rio Foto: TASSO MARCELO / AFP

Um apoio dentro da universidade

Os bolsistas da Coordenadoria de Acessibilidade Educacional (CAE) podem desde apoiar a saída do aluno com deficiência de dentro do carro, como na locomoção dele por ambientes dos campi da UFSC, na solicitação de matérias, recursos e suporte técnico e tecnológico junto aos departamentos e nas atividades acadêmicas. Há casos em que o bolsista escreve o que o aluno lhe dita, inclusive, na realização de provas quando há algum impedimento para a realização.

Outro projeto da CAE que ajuda na política de inclusão é a Multa Moral, que destina vagas no estacionamento para pessoas com deficiência. A multa consiste numa mensagem de valor simbólico que é deixada nos veículos estacionados de maneira inapropriada nas calçadas ou vagas para pessoas com deficiência.

No quesito acessibilidade, também existe a biblioteca, que atende exclusivamente as demandas dos estudantes com deficiência. Localizado no piso térreo da Biblioteca Central, tem piso podotátil que guia até o local. Entre os serviços oferecidos estão acervo em Braille, leituras e digitalização de material didático, empréstimo de lupas, cds, dvds, notebooks. 

O lugar também tem computadores softwares específicos para os usuários, espaços de estudo, impressão em braile, texto em fonte maior para baixa visão e cópias ampliadas.

Outra referência da UFSC no tema inclusão se faz através do curso de Libras, seja nos modelos presencial, a distância, na extensão. A política da educação inclusiva também alcança o Colégio Aplicação, o qual recebe alunos com história de deficiência no ensino regular.

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Depois de 20 anos, lei em defesa da pessoa com deficiência entra em vigor

Depois de quase 20 anos em tramitação, entrou em vigor em janeiro de 2016 a Lei Brasileira de Inclusão (lei 13.146). Também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência, a legislação lançou um novo olhar sobre 45 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência. 

No evento sobre acessibilidade da UFSC, a assistente Kelly Cristiny Cabral vai falar pelo Conselho Estadual de Pessoas com Deficiência e destacará a punição a que estão sujeitos aqueles que deixam de cumprir o estatuto, inclusive o poder público, ao não ofertar condições físicas como rampas, vagas para estacionamento e piso tátil. 

Vinicius Schmidt, que é apaixonado por esporte, em maratona que disputou em 2013 na capital catarinense Foto: Guto Kuerten / Agencia RBS

Além disso, como a prática de racismo, existem também elementos jurídicos que podem levar à responsabilização por preconceito. A ideia é fazer com que a punição por discriminação, por exemplo, surta um efeito cultural e pedagógico positivo na sociedade.

O estudante de Psicologia Vinicius Schmidt, 26 anos, é jornalista formado pela UFSC e se define como cadeirante de nascença – em consequência da má formação das articulações que limitam movimentos e menor força muscular – e esportista de coração. No evento de hoje, fará o cerimonial da parte desportiva. Por onde passa repete uma espécie de mantra: a deficiência não está na pessoa, mas para o ambiente onde a pessoa está.

O estudante é um dos protagonistas de um vídeo lançado ano passado pelo Núcleo de Estudos sobre Deficiência da UFSC, onde estudantes e servidores com deficiência dão depoimentos sobre situações rotineiras que vivem. Com relação à acessibilidade nas dependências da UFSC, o estudante de psicologia reconhece melhorias, mas também problemas para o deslocamento de cadeirantes, que enfrentam calçadas esburacadas e banheiros nem sempre adequados ou abertos em determinados horários.

– Mas aqui, na UFSC, isso não é só com as pessoas com alguma deficiência. Esse processo é geral – pontua.

Quando o tema é acessibilidade, Vinicius recorre sempre à expressão ¿nada de nós sem nós¿, a qual trata de explicar o significado:

– Para se falar sobre deficiência, é preciso incluir as pessoas que a vivenciam todo dia, que sabem como é enfrentar barreiras, experienciar o estranhamento alheio, conviver em paz com o próprio corpo.

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