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Maciço do Morro da Cruz15/09/2016 | 10h00Atualizada em 15/09/2016 | 09h59

Rochas em áreas de risco assustam moradores do Morro da Mariquinha, em Florianópolis

Em 2011, um deslizamento deixou uma pessoa morta no local

Rochas em áreas de risco assustam moradores do Morro da Mariquinha, em Florianópolis Marco Favero/Agencia RBS
Elemar até construiu estrutura para tentar segurar a Pedra Bicuda Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Subindo as escadarias, já perto do topo do Morro da Mariquinha, uma das comunidades do Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis, uma casinha de madeira esconde uma surpresa indevida. Logo atrás da residência, uma rocha com mais de 100 toneladas e dez metros de altura tira o sono dos moradores das proximidades. A Pedra Bicuda, como é chamada, parece que está pronta para tombar morro abaixo e levar tudo o que estiver pela frente. A comunidade espera, mais do que nunca, por obras de contenção.

Depois da tragédia de dezembro de 2011, quando uma rocha deslizou e destruiu quatro casas, um comércio e matou uma pessoa, a preocupação entre os moradores da Mariquinha ficou mais forte. Foi criado o Núcleo Comunitário de Defesa Civil (Nudec), como apoio do órgão municipal, e obras de contenção na área atingida em 2011 foram entregues no ano passado.

Em uma pesquisa acadêmica realizada em 2015, no entanto, foram identificadas novas e catalogadas antigas áreas de risco na comunidade: 20 no total. A geóloga Gabriela Bessa desenvolveu a pesquisa para seu trabalho de conclusão de curso, pela UFSC. A Pedra Bicuda é a situação mais complicada. Ela pede a saída dos moradores do local com urgência.

— Só de visualizar a Pedra Bicuda é possível identificar a gravidade da situação — comentou a geóloga.

Para os leigos, é difícil até entender como a Pedra Bicuda ainda se mantém no lugar. Segundo a avaliação da geóloga, além da Pedra Bicuda, há uma segunda rocha no local, igualmente grande, que juntas, pesam 150 toneladas. Existem outras cinco rochas menores, que pesam cerca de 15 toneladas, de acordo com Gabriela. Para piorar, por baixo dos blocos rochosos, escorre muita água do topo do morro, o que preocupa ainda mais o presidente do Conselho Comunitário do Morro da Mariquinha, Alex Correia.

— Percebemos que com o passar do tempo, o solo que dá apoio às rochas tem diminuído. A situação ainda fica mais complicada porque em frente à rocha passa uma adutora da Casan que abastece o sul da Ilha. Se a rocha um dia deslizar, vai atingir o cano. A pressão da água vai destruir o Morro da Mariquinha inteiro — teme o líder comunitário.

Alex é líder comunitário no bairro Foto: Marco Favero / Agencia RBS

O pescador Elemar Cruz, de 37 anos, tem uma casa logo ao lado da Pedra Bicuda. Tamanha é sua preocupação que virou membro do Nudec. Nascido na Mariquinha, ele afirma que o cenário tem mudado com o tempo. O risco parece estar mais próximo, em sua opinião. Para tentar evitar o pior, ele mesmo construiu uma pequena base de concreto para tentar segurar a Bicuda.

— Quando chove, escorre muita água por debaixo da rocha. A cada chuva, é uma noite não dormida. A Defesa Civil já nos alarmou: se chover forte, o negócio é sair de casa — lamenta o morador.

A Defesa Civil esteve no local e uma empresa contratada já até sinalizou a pedra, com números, para o início das obras. Mas conforme os moradores, este ano ninguém mais apareceu por lá.

Tragédia em 2011

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

No final da rua Laura Caminha Meira, a principal da Mariquinha, mora o zelador Antônio Carlos Machado Pascoal, de 50 anos. Há 40 anos no Morro, ele nunca achou que uma tragédia como a de 2011 pudesse acontecer.

— Mas se aconteceu lá, por que não pode ocorrer aqui? — indaga.

Ele mora numa casinha de madeira onde, nos fundos, há blocos rochosos que também apresentam riscos, segunda avaliação da pesquisa acadêmica.

— Há muitas fissuras nas rochas, onde escorre muita água em dias chuvas — explicou Alex Correia.

O zelador quer limpar, na próxima semana, o terreno dos fundos de sua casa para as rochas ficarem bem visíveis. E claro, para evitar que, em caso de deslizamento, entulhos e vegetação prejudiquem ainda mais sua residência.

— Queria reformar minha casa também. Mas não posso fazer nada antes de construírem um muro de contenção aqui — contou Antônio, mais conhecido pelo pessoal do morro como Tatinho.

Durante o trabalho da geóloga Gabriela Bessa, foi entregue ainda um questionário para 20 moradores do Morro perguntando, entre outras questões, se, visualmente, eles consideram estar em uma área de risco. No total, 94% deles responderam que sim.

Sem interessados na obra

Segundo o diretor da Defesa Civil de Florianópolis, José Cordeiro Neto, todas as áreas de risco do Morro da Mariquinha foram catalogadas. Os laudos foram repassados para a Secretaria de Habitação, que é a responsável por obras de contenção do Maciço do Morro da Cruz.

— Numa visita de campo, esta rocha (a Pedra Bicuda) foi detectada. Ela realmente oferece risco. Abaixo há uma série de residências — confirmou o diretor da Defesa Civil.

A Secretaria de Habitação de Florianópolis chegou a abrir uma licitação para contratar uma empresa que faça as obras de contenção no Morro da Mariquinha, com prioridade para a Pedra Bicuda. Mas nenhuma empresa apresentou interesse em participar do processo licitatório. Será aberta uma nova licitação após o período eleitoral, informou a assessoria de imprensa do órgão. Caso ninguém se interessar mais uma vez, um novo planejamento, como novos preços, devem ser analisados.

Para retirar os moradores do local e colocá-los em programas habitacionais , é preciso um laudo da Defesa Civil para interditar as casas da região. Por enquanto, informou a assessoria de imprensa, nenhum laudo neste sentido foi emitido. 

 
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