Mãe e filha haitianas se reencontram em Florianópolis após dois anos de saudade - Geral - Hora de Santa Catarina

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Só sorrisos!08/10/2016 | 08h55Atualizada em 08/10/2016 | 10h17

Mãe e filha haitianas se reencontram em Florianópolis após dois anos de saudade

Menina chegou nesta sexta-feira, depois que uma corrente do bem foi formada para que viesse ao país

Mãe e filha haitianas se reencontram em Florianópolis após dois anos de saudade Marco Favero/Agencia RBS
Clese e a filha na chegada ao aeroporto Foto: Marco Favero / Agencia RBS

No abrir e fechar do portão de desembarque do Aeroporto Hercílio Luz, o olhar insistente e ansioso da haitiana Wilclese Saint Fleur, 29 anos, procurava um pequeno rosto em especial. Depois que o painel informou que o voo vindo do Rio de Janeiro já estava em solo, uma eternidade se passou até que a mulher viu sua filha, a pequena Wilnise Joseph, 4 anos, que finalmente havia chegado em segurança em Florianópolis. Jogando a menina para o alto e soltando uma gargalhada de felicidade, Wilclese respirou aliviada. Nem uma lágrima caiu de seus olhos. No seu rosto, somente um sorriso sem tamanho por ter a criança em seus braços após dois anos de distância. 

— Agora estou muito, muito, muito feliz — disse a haitiana, arranhando no português. 

Ao sair de casa na manhã desta sexta-feira, Wilclese colocou sua melhor roupa, conferiu se estava tudo pronto para receber a filha e saiu para o encontro que esperava desde que veio do Haiti para o Brasil em busca de uma vida melhor. O voo previsto para chegar às 10h30min atrasou quase 30 minutos, e a ansiedade ia tomando conta de Clese, como é chamada pelos amigos. A colega Carolina Luciano, que a acompanhava, monitorava o voo na expectativa que já tinham vivido dois dias antes. A chegada da menina estava prevista para quarta-feira, porém o voo foi cancelado devido ao furacão Matthew, que passou pelo Haiti nesta semana deixando ao menos 800 mortos.

Corrente do bem

Nestes dois anos longe, mãe e filha mantiveram contato por Whats App, enviando vídeos e áudios. Em meio às dificuldades, Wilnise cresceu e já não é mais a bebê que Clese deixou no Haiti. Esbanjando simpatia, com os cabelos penteados com enfeites coloridos especialmente para o reencontro preparados pelo pai Jimily Joseph — que não é casado com Clese — Wilnise correu para os braços da mãe. Logo quis conversar, abraçar e conhecer os amigos que tornaram este encontro possível, graças a uma corrente de solidariedade formada por colegas de trabalho que se sensibilizaram com a história da mulher. Todos estavam reunidos em uma convenção em um hotel, e quando Clese chegou com Wilnise virou a atração do evento, emocionando todos que participaram da ação:

— Agora temos a sensação de missão cumprida. Espero que elas possam começar uma nova vida juntas aqui no Brasil, com mais condições, dignidade e sejam felizes — falou Marion Gottschalk, diretora da Intercultural, empresa na qual Clese trabalha. 

Marion foi uma das pessoas que ajudou a trazer a menina Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Vida melhor

A história de Clese se assemelha a de milhares de haitianos e outros imigrantes que vêm para o Brasil em busca de uma vida mais digna, deixando para trás família e amigos, com a esperança de um dia poder trazê-los. Quando chegam aqui, vêem que a situação não é bem como esperavam: muitos não conseguem emprego, e quando conseguem ganham somente o suficiente para se manter, sem conseguir enviar dinheiro para o seu país, muito menos economizar para pagar a passagem e despesas com visto para trazer o restante da família. 

No caso de Clese, o pai vendeu a casa em que moravam para que ela pudesse vir pro Brasil:

— Eu tinha um irmão que já morava aqui, mas custou muito dinheiro para mim. Fui de avião para o Equador, depois de ônibus para o Peru e para o Acre. De lá a gente veio de ônibus para Florianópolis. Meu irmão teve que voltar para o Haiti, mas eu consegui trabalho e fiquei — explica. 

Em português, Clese aprendeu o que é saudade, palavra de difícil tradução. Após trabalhar na cozinha de alguns restaurantes da cidade, conseguiu a vaga de auxiliar de limpeza na Intercultural, agência de viagens e intercâmbio. Lá, os colegas começaram a perguntar de sua história e ela contou que tinha deixado uma filha de dois anos no Haiti, e com eles entendeu o significado de solidariedade:

—  A gente via ela triste, chorando pelos cantos e ela contou que a filha estava doente e não tinham dinheiro para levar no médico. Cada um doou um pouco e ajudamos pela primeira vez. Aí começamos a ver como era para trazer a menina para o Brasil. Foi um longo e complicado processo de enviar documentos, autorizações para o Consulado do Haiti em Brasília, acho que mais de seis meses até a gente conseguir tudo. Depois tinha a questão das passagens, porque além de pagar para a Wilnise, tínhamos que comprar para quem fosse trazer ela, pois não poderia viajar sozinha. Custou quase R$ 7 mil, então demoramos um tempo até conseguir todo o dinheiro — relembra Marion.

O pai da pequena também veio ao Brasil Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Saudade e solidariedade

No Natal de 2015, os funcionários abriram mão de receber a cesta de natal da empresa para que o valor fosse somado na compra das passagens de avião. Marion conta que depois que as passagens foram emitidas, o semblante de Clese, que costumava ser cabisbaixo, mudou completamente. 

— O mundo é tão grande, tem lugar para todos. O pai da Clese mandou um recado pra gente, falando que queria agradecer muito essa família da empresa que ela encontrou, que ela encontrou um outro mundo muito bom. Fico triste de pensar que tem tantas pessoas passando por necessidades em situações tão tristes, de guerra, de fome, mas fico feliz de pensar que pela pessoa ao nosso lado, perto de nós, a gente pôde fazer alguma coisa — finaliza Marion.

O recomeço de Clese e a filha inicia agora. Hoje, elas vivem o primeiro fim de semana juntas em solo brasileiro. O futuro promete ter mais sorrisos que o passado.

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