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Economia26/11/2016 | 06h06Atualizada em 26/11/2016 | 06h06

Escassez de berbigão afeta comércio em Florianópolis 

Crescimento da mortandade da espécie no mar de Florianópolis se reflete no aumento de preço do molusco na região 

Escassez de berbigão afeta comércio em Florianópolis  Cristiano Estrela/Agencia RBS
Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

O pastel de berbigão do bar dos Volantes da UFSC, em Florianópolis, está em falta. A tradicional iguaria preparada pelo gerente Silvinho Bonifácio consta no cardápio, mas não está no estoque. Motivo: falta molusco no mercado.

– Esses dias eu comprei um berbigão do Rio Grande do Sul, mas a qualidade não é boa, tive que colocar fora – diz Silvinho.

Em 2010, por exemplo, o pastelzinho custava R$ 2, mas o preço acompanhou o aumento repassado pelos fornecedores. Neste ano, Silvinho chegou a incrementar o produto, fazendo um pastel maior, para poder vender a R$ 6,50. Agora, pagando R$ 40 pelo quilo de um molusco de qualidade inferior, o lucro encolheu e ameaça o petisco.

O aumento também é observado nos balcões do Mercado Público da Capital. No varejo, o quilo da carne sem concha é vendido também a R$ 40. É a lei do mercado: a oferta dos fornecedores não acompanha a demanda dos comerciantes. Antes, entre 50 a 100 quilos por semana chegavam à região. Agora, a mesma quantidade demora até 15 dias. Outras peixarias conseguem comprar ainda menos, quando dão preferência aos produtores locais: no Box 13 de Manoel Guimarães, compra-se lotes de dois quilos por vez; no 24, o fornecedor vem lá da Praia do Sonho, em Palhoça.

– Há dois anos, vendíamos por R$ 18 ou R$ 20. Hoje, somos obrigados a dobrar esse preço porque pagamos mais caro – conta Flávio Júnior, da Peixaria Golfinho, que trabalha há 12 anos no Mercado Público.

Analistas estudam causa da redução

O motivo da escassez do molusco em Florianópolis ainda é desconhecido. Sabe-se o período em que começou: fevereiro de 2015, quando os analistas ambientais e produtores da Reserva Extrativista do Pirajubaé, no sul da Ilha de SC, perceberam uma mortandade de 80% em apenas 20 dias. Desde então, a população da espécie não se recuperou. Fenômeno que também foi relatado em locais de extração informais, na Tapera ou no Maciambu (Palhoça).

– Ainda não conseguimos identificar as causas. Chegamos a encontrar um protozoário, que está sendo analisado, mas é cedo para afirmar se foi uma enfermidade, um fenômeno externo ou a soma de vários fatores – explica a professora Aimê Rachel Magenta Magalhães, do Departamento de Aquicultura da UFSC.

Aimê coordena uma investigação em conjunto com Instituto Chico Mendes (ICMBio), gestor da reserva extrativista, e Secretaria Municipal de Pesca, Maricultura e Aquicultura para descobrir as causas da mortandade e garantir a recuperação da população de berbigão na Capital. Uma das propostas é tentar consolidar um sistema de cultivo concomitante ao de extração, para que as espécies nativas consigam se reproduzir a tempo.

– Enfrentamos dificuldades, já que as espécies cultivadas, que não se reproduzem, também são muito sensíveis às variações de temperatura entre o inverno e o verão – explicou o secretário da Pesca, William Costa Nunes.

A escassez do molusco também ameaça a tradicional festa do Berbigão do Boca. O famoso evento de Carnaval que ocorre no Centro de Florianópolis sofrerá com a alta do preço, já que a organização distribui 100 litros de caldo de berbigão de graça para a população. O prato leva 40 quilos do produto, fora o concurso gastronômico, em que cada chefe é responsável pelos seus próprios ingredientes.

– No ano passado, muitos cozinheiros já importaram berbigão de outros Estados. Já a gente sentiu que o preço subiu bastante, mas conseguimos comprar daqui de Florianópolis. Para se ter uma ideia, em 2004 o quilo custava R$ 5. Agora vamos ver como vai ficar – disse o diretor financeiro da festa, Leonardo Garofallis, o Nado.

Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Famílias abandonam extrativismo na região

Quem mais sofre com a falta do molusco não é o consumidor que aprecia um pastel recheado ou um caldinho de berbigão, mas o catador. Muitas das famílias que trabalham na reserva do Pirajubaé acabam recorrendo à pesca de outras espécies como o peixe parati e o camarão, nativos do local, ou até mesmo a trabalhos informais, como faxina. Para auxiliar o grupo, a administração municipal chegou a enviar à Câmara proposta de orçamento para 2017 com auxílios aos maricultores para casos como escassez, perda de materiais e reconstruções de ranchos.

– Eles são duplamente marginalizados. Dependem da atividade, mas não podem recorrer a um trabalho formal, com carteira assinada, sob o risco de perder a licença – explica a analista ambiental do ICMBio, Laci Santin.

A especialista diz que não há números precisos sobre a queda na produção. A Univali monitorava o volume da biomassa de berbigões, mas antes da mortandade de 2015 o convênio havia terminado. Agora os pesquisadores retomarão a análise de forma voluntária a partir de dezembro. Mas alguns números conseguem passar uma noção do cenário: antes de 2015, a produção normal envolvia 23 extrativistas cadastrados que catavam de 200 a 300 quilos de berbigão diariamente. Hoje, são 15 cadastrados, mas no máximo quatro trabalham para extrair a mesma quantidade por semana. O que era considerada uma mortandade normal de 20%, inverteu-se para 80%.

– O esforço de pesca é muito grande para um retorno muito baixo. É lamentável, pois não é apenas uma atividade econômica, mas cultural – diz Santin.

 
 
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