História: Novembrada para turista conhecer e pro mané relembrar - Geral - Hora de Santa Catarina

Manifestação na Capital30/11/2016 | 12h31Atualizada em 30/11/2016 | 13h21

História: Novembrada para turista conhecer e pro mané relembrar

O dia 30 de novembro de 1979 marcou a queda da Ditadura Militar

História: Novembrada para turista conhecer e pro mané relembrar Agência RBS/Agencia RBS
Foto do arquivo do Jornal de Santa Catarina. Manifestação de estudantes e moradores durante a visita do presidente Figueiredo, em 1979 Foto: Agência RBS / Agencia RBS

Crise econômica. Brasileiros sem dinheiro para comprar comida; preço da gasolina a saltar os olhos; inflação fora de controle e desemprego. Não, não estamos falando dos dias atuais. E sim do fatídico 30 de novembro de 1979, que completa hoje 37 anos. Nesta data, o então presidente militar, João Baptista Figueiredo, veio a Florianópolis. Sua passagem meteórica foi marcada por tudo, menos por tapinhas nas costas. Estudantes e manezinhos foram às ruas protestar no episódio que ficou chamado de Novembrada.

A data foi lembrada no último sábado em um passeio guiado com o jornalista e guia turístico Rodrigo Stüpp. Ele levou um grupo de aproximadamente 80 pessoas para conhecer os palcos da manifestação, como o Largo da Catedral Metropolitana, o Palácio Cruz e Souza (hoje museu), e o café Ponto Chic, localizado no calçadão da Felipe Schmitd, no espaço conhecido como Senadinho. Lá, uma placa lembra o episódio tão importante para a história catarinense.

Tour Côza Nossa ocorreu no último sábado,  26 de novembro.  Foto: Juliano Zanotelli / Arquivo Pessoal

— A Ditadura Militar já tinha começado a aliviar, vamos dizer assim, com Ernesto Geisel. Mas Figueiredo deu o toque final para o fim do período — avalia o jornalista Valter Souza, que cobriu a vinda do político à Capital, na época pela TV Catarinense (que mais tarde se tornou RBS).

Segundo ele, ainda no carro, entre o trajeto do aeroporto Hercílio Luz ao Palácio Cruz e Souza, Figueiredo já encontrou resistência.

— O presidente foi recepcionado no aeroporto pelo então governador Jorge Bornhausen e, no caminho, donas de casa da Costeira do Pirajubaé realizaram um panelaço nas ruas — contou o jornalista.

Foto do arquivo do Jornal de Santa Catarina. A manifestação dos estudantes em frente à Catedral Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

No Palácio Cruz e Souza, como lembrou o guia Rodrigo, estava uma multidão convidada pelo governo para prestar solenidade ao presidente. Mas junto deles estavam os descontentes: estudantes da UFSC também esperavam por Figueiredo na escadaria da Catedral.

— Figueiredo tinha dito em uma oportunidade que preferiria o cheiro dos cavalos ao do povo. Os estudantes berravam Cavalo! Cavalo! Cartazes com "Abaixo a repressão" também eram vistos — explicou Rodrigo.

Berro a favor, berro contra. Figueiredo, na sacadinha do Palácio, fez então um gesto bastante suspeito. Juntou os dois dedos para indicar que as vaias eram poucas.

— Quem estava perto do palácio, conseguia ver claramente que o gesto dele com os dedos indicava pouco, que a manifestação contrária era muito menor que a favorável — disse Valter.

Foto cedida por James Tavares, que cobriu a vinda do presidente, para a tour Côza Nossa, do jornalista Rodrigo Stüpp. Foto: James Tavares / Divulgação/ Tour Côza Nossa


No entanto, para os estudantes que estavam mais afastados, na escadaria da Catedral, o sinal foi visto como uma provocação. De lá, os dedos mostravam aquele famoso "vai tomar...".

Fuzuê dos grandes

A partir do sinal, a confusão só aumentou. Na mesma oportunidade, Figueiredo iria inaugurar uma placa na Praça XV de Novembro que homenagearia Floriano Peixoto — que deu nome à Capital de SC.

Foto do arquivo do Jornal de Santa Catarina. A placa que foi arrancada pelos manifestantes. Foto: Agência RBS / Agencia RBS

— A turma se rebelou. Arrancaram a placa, queimaram. Mas como era de ferro, ficou inteira. O coronel Nilo (Marques Medeiros Filho) a guardou escondida no forro de sua casa até poucos anos atrás — contou Valter Souza.

O presidente, pela primeira vez na história do país, partiu para o ataque pessoal. Ao som das vaias de "filho da...", o próprio desceu as escadas do palácio e empurrou seus seguranças. Valter Souza, com o microfone em mãos, deu de cara com o militar e fez uma antológica entrevista de uma pergunta só. Perguntou o que o presidente gostaria de conversar com os protestantes.

— Eu gostaria de perguntar por que a minha mãe está em pauta. Eles ofenderam a minha mãe. Por que isso? Por que essa baixeza? — falou o presidente, na maior bronca.

— Eu tive que encerrar a entrevista ali porque levei um soco de um oficial da Marinha. Queria perguntar mais. O presidente esbravejou ainda que quem queria ser comunista, que deveria ir para a Rússia (na época, União Soviética, que tinha um regime comunista)— comentou o jornalista.

Vuco-vuco no Senadinho

Figueiredo, mesmo em meio aos protestos, não cancelou seu trajeto. Foi até a Felipe Schmitd para tomar um cafezinho no Ponto Chic, como estava previsto. Os estudantes e os puxas-sacos acompanharam. Ali, disfarçados, estavam policiais federais, contou Rodrigo, que fotografavam os estudantes manifestantes.

O café do presidente. Foto do arquivo do Jornal de Santa Catarina Foto: Divulgação / Divulgação

O governador Bornhausen e o presidente já estavam dentro do carro, mandando-se o mais rápido possível da confusão, quando Valter, mais uma vez, conseguiu enfiar o microfone em frente ao militar.

— Disse para ele que ninguém imaginava que isso aconteceria. E ele: é meu filho, é meu filho.

Explosão de estrume

Depois da confusão no Centro, lembra Valter, Figueiredo foi a uma churrascada em Palhoça com o governador Bornhausen e mais uma comitiva. Lá, é claro, rolou tudo tranquilamente.

Durante a tarde, eles seguiram para a inauguração da que seria o primeiro biodigestor do Brasil.

— Era um equipamento movido a, vamos dizer, fezes de suínos. Mas quando os engenheiros ligaram o equipamento no interruptor, a pressão foi tão alta, que explodiu. Jogou o material orgânico para todo o lado. O cinegrafista ficou completamente sujo. Mas o presidente e o governador deram um pulo para trás, e não atingiu eles — contou Valter.

Segundo Valter, Figueiredo foi embora logo em seguida, reclamando que era problema demais para um dia só.

O presidente, por volta de 16h30min do mesmo dia, embarcaria para ir embora e, no aeroporto, o jornalista da TV Catarinense, mais uma vez, o conseguiu encontrar. Perguntou sobre Sidersul, siderúrgica que seria construída em Imbituba.

— Meu filho, depois de tantos, tantos problemas, você vem me perguntar de Sidersul? Tchau! — e lá se foi Figueiredo, embora o mais rápido possível de SC. E a siderúrgica nunca foi construída no Sul do Estado.

Novembrada

Colocando o bom humor de lado, a Novembrada foi um dos episódios mais importantes para a queda da Ditadura Militar no Brasil. Pela primeira vez um presidente partiu para cima dos manifestantes.

Foto do arquivo do Jornal de Santa Catarina. Confusão durante o trajeto do presidente até o Senadinho.  Foto: Agência RBS / Agencia RBS

Nos dias seguintes ao episódio, os estudantes, quase todos ligados ao Diretório Central de Estudantes (DCE) da UFSC, foram perseguidos, precisaram se esconder e se entregaram poucos dias depois. Segundo Rodrigo, eles fizeram algumas exigências, como exame de corpo delito todos os dias, para não sofrerem com tortura ou agressões — comuns no período da Ditadura Militar. Em cerca de 10 dias, com pressão de deputados e da comunidade mané, eles foram soltos.

As fitas com as entrevistas de Valter também precisaram ser escondidas na época, para não caíram na censura. Foram salvas. 

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