O que se sabe e o que ainda é dúvida sobre a queda do avião que levava o time da Chapecoense  - Geral - Hora de Santa Catarina

Acidente aéreo29/11/2016 | 10h18Atualizada em 29/11/2016 | 17h57

O que se sabe e o que ainda é dúvida sobre a queda do avião que levava o time da Chapecoense 

Autonomia de voo, falta de combustível e mudança na prioridade do pouso são causas levantadas por especialistas

Cristian Edel Weiss
Cristian Edel Weiss

cristian.weiss@diario.com.br

O acidente do avião que transportava o time e a comissão técnica da Chapecoense perdeu o contato com o radar quatro minutos antes da 1h (horário de Brasília) segundo o site de aviação Flight Radar. A queda da aeronave matou pelo menos 71 pessoas na Colômbia na madrugada desta terça-feira.

Especialistas em aviação levantam hipóteses para a causa do acidente. Para o professor de Ciências Aeronáuticas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e comandante de aviação comercial aposentado, Cláudio Scherer, algumas informações ainda são desencontradas. 

O avião da companhia aérea La Mia tipo RJ85, matrícula CP2933, decolou do Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, à 0h13min (horário de Brasília), com 77 pessoas a bordo: 68 passageiros e nove tripulantes.

A aeronave caiu na localidade de Cerro El Gordo, em La Unión, cidade da província de Antioquia, a cerca de 36 quilômetros do Aeroporto Internacional José Maria Córdova, da cidade de Rio Negro, região metropolitana de Medellín. Segundo Scherer, a distância era de aproximadamente seis minutos para tocar a pista de pouso do aeroporto.

Trecho entre Abejorral e Campoalegre, onde o avião perdeu altitude e deu voltas antes do pouso forçado  Foto: 0 / Reprodução

Nessa região montanhosa, a aeronave teria tido uma pane elétrica, como informou oficialmente o Aeroporto José Maria Córdova. Segundo o site Flight Radar, a aeronave perdeu bruscamente altitude e velocidade às 0h50min (horário de Brasília). 

O diretor da Aeronáutica Civil de Colômbia, Alfredo Bocanegra, afirmou que o comandante do avião havia pedido autorização para pousar no aeroporto, mas logo o contato foi perdido. 

Registro do site Flight Radar do momento exato em que o avião perde contato com o radar, às 0h55, horário de Brasília Foto: Reprodução / Flight Radar

À 0h42min, quando a aeronave já tinha descido a 6,5 mil metros de altitude, em forma de espiral o comandante dá duas voltas completas no sentido anti-horário e aparentemente se preparava para seguir rumo ao norte, em direção ao aeroporto.

O último registro foi às 0h55min58s. Nesse exato momento, o avião estava a uma velocidade de 263 Km/h e a uma altitude de 4.740 metros.

Nos primeiros minutos após a confirmação do acidente, a imprensa colombiana chegou a afirmar que a falta de combustível poderia ser uma das causas da queda. Mas logo a informação que correu foi a de que o comandante havia despejado o combustível na região antes de tentar um pouso forçado.

Veja a trajetória do avião desde a saída da Bolívia até momentos antes da queda

Autonomia de voo é questionada por especialista

Uma das perguntas ainda sem resposta é se a aeronave tinha autonomia de voo para voar diretamente da Bolívia à Colômbia sem pousar para reabastecer. Segundo a fabricante, o avião tinha capacidade para voar até 2.965 quilômetros com velocidade máxima de cruzeiro de 720km/h.

Segundo o professor Cláudio Scherer, a rota Santa Cruz de la Sierra-Rionegro, que segundo o Flight Radar tem uma distância de aproximadamente 2.975 km, superior a um voo de Porto Alegre ao Recife, teria forçado a aeronave a voar no limite da capacidade, sem reservas. Por isso, a hipótese de que também houve falta de combustível é não pode ser descartada ainda.

– Pelo que observamos levando em consideração a distância da rota e a autonomia da aeronave, parece que a situação ficou bem crítica. Mas não há como dizer que foi isso (o motivo da queda), mas não estava confortável. Parece que a autonomia ficava um pouco restrita. Ideal é se houvesse uma parada intermediária — diz o presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), Rodrigo Spader.

Ele acrescenta que as condições do vento devem ser levadas em consideração no planejamento do voo. Para ele, um vento de proa (quando está no sentido oposto à aeronave), gastaria mais combustível.

O despejo de combustível – conhecido na aviação como alijamento – também é descartado. Tanto Spader e Cláudio Scherer afirmam que uma aeronave desse tamanho não faz esse tipo de procedimento, comum para aeronaves de grande porte. O alijamento é utilizado quando o peso da aeronave é maior do que o peso máximo recomendável para pousar com estabilidade.

Conforme Scherer, por determinação da aviação internacional, aviões devem voar com combustível extra equivalente a pelo menos meia-hora adicional de voo, para o caso de emergências ou dificuldades ao pousar devido a condições climáticas. Essa é a carga liberada na atmosfera no alijamento, se for necessário.

Spader acrescenta que é preciso levar em consideração na investigação as jornadas dos pilotos.

— Hoje 20% dos acidentes são decorrentes de fadiga da tripulação. Os pilotos realmente estavam descansados? Esse é um ponto que deve ser estudado.

Outra aeronave teria recebido aval prioritário da torre de comando para pousar

Outro ponto que ainda deixa dúvidas é a informação divulgada pela imprensa colombiana de que a torre de controle recebeu pedido de prioridade de pouso do comandante da aeronave minutos antes de perder o contato com o aeroporto. Mas outra aeronave teria recebido a liberação para pousar antes da La Mia. 

"O acordo com a Bolívia, país originário da companhia aérea Lamia, não prevê operações como a solicitada", afirma Anac

O avião que transportava a equipe da Chapecoense não tinha autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) em razão da Bolívia, país originário da companhia aérea Lamia, não prever operações como a solicitada (de fazer o voo direto Brasil - Colômbia, sem passar pela Bolívia), o que contraria o Código Brasileiro de Aeronáutica (CBAer) e a Convenção de Chicago, que trata de acordos de serviços aéreos entre os países. 

"O acordo com a Bolívia, país originário da companhia aérea Lamia, não prevê operações como a solicitada. Complementando a negativa do pedido, a Anac informou ao solicitante do voo que o transporte poderia ser realizado por empresa aérea brasileira e/ou colombiana, conforme a escolha do contratante do serviço, nos termos dos acordos internacionais em vigor", afirmou a agência em nota.

Detalhes da aeronave

Foto: Divulgação

Modelo: British Aerospace Avro RJ 85
Tamanho: avião de pequeno porte para voos regionais
Local de fabricação: Reino Unido
Tempo em atividade: 17 anos
Velocidade de cruzeiro: 763km/h
Autonomia: 2.965 quilômetros com combustível máximo ou 2.130 quilômetros com carga máxima
Capacidade: 85 a 112 passageiros

Caixas pretas do avião são encontradas

A Aeronáutica colombiana divulgou na tarde desta terça-feira que as caixas pretas do avião que transportava a equipe da Chapecoense e jornalistas foram encontradas em "perfeito Estado".


 
 
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