Sapatos são espalhados em ato para lembrar as 143 mortes violentas de mulheres em Santa Catarina - Geral - Hora de Santa Catarina

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Para chocar25/11/2016 | 19h13Atualizada em 25/11/2016 | 19h36

Sapatos são espalhados em ato para lembrar as 143 mortes violentas de mulheres em Santa Catarina

No dia Internacional do Combate à Violência Contra a Mulher, conselhos e coordenadorias realizaram ato para lembrar das mulheres que foram mortas em 2015

Sapatos são espalhados em ato para lembrar as 143 mortes violentas de mulheres em Santa Catarina Diorgenes Pandini/Agencia RBS
Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

A aposentada Ivonete Zilli, de 71 anos, passava pelo Centro de Floripa na tarde desta sexta-feira quando um movimento na Praça Fernando Machado atiçou sua curiosidade. Ela perguntou do que se tratava e quando soube que era um ato para lembrar as 143 mortes violentas de mulheres em Santa Catarina no ano de 2015, arregalou seus olhos, parou seu trajeto e sentou em uma das cadeiras para participar do momento.

— Acho muito importante essa discussão, esses movimentos, porque está demais. Todos os dias vemos casos de violência contra a mulher nos jornais — avaliou a aposentada.

O efeito causado em dona Ivonete era justamente o esperado pela organização do ato que, em cima de uma cruz roxa (cor que representa a volta da luta feminista), espalhou 143 pares de sapatos femininos. Cada um deles representa uma mulher que foi morta de uma forma violenta no ano passado. Deste total, 46 homicídios causados especificamente por violência doméstica, número bastante preocupante, reflete Dalva Kaiser, coordenadora de Políticas Públicas para as Mulheres de Florianópolis. Neste ano, somente Florianópolis registrou seis assassinatos de mulheres.

— Quando falávamos o número, as pessoas ficaram espantadas. Esse era o mote. É um dado muito alarmante que precisa ser levado e discutido com a sociedade — complementou Dalva.

Foto: CAROLINE STINGHEN / CAROLINE STINGHEN

De acordo com a coordenadora estadual da Mulher, Célia Fernandes, este número lembra que mulheres foram mortas simplesmente por serem mulheres.

— Uma grande conquista foi a aprovação, no ano passado, da lei do Feminicídio, que classifica o assassinato de mulher como crime hediondo — relatou.

A membro do Conselho Estadual da Mulher (Cedim) e responsável por reunir dados de violência contra a mulher no Instituto de Estudos de Gêneros (IEG) da UFSC, Carmem Ramos, lembra ainda que é preciso discutir não são só as punições, mas também ações educativas para evitar e diminuir os casos.

— Quando falo em ação educativa, não estamos só falando de campanhas em escolas. Nem todas as crianças estão na escola, por exemplo. Temos que informar em todos os meios para diminuir a cultura patriarcal, e parar de acreditar que o privado pertence à mulher, e o público ao homem. A mulher não é posse. E isto precisa ser lembrado sempre — disse a pesquisadora.

Segundo ela, hoje, a rede protetiva à mulher não é suficiente para atender toda a demanda. Só em 2015, segundo Carmem Ramos, mais de 20 mil boletins de ocorrência foram registrados no Estado com algum tipo de violência relacionada à mulher.

— Só de casos de estupros, foram mais de três mil. Muito caso e pouca gente trabalhando na rede. E muitos não estão capacitados no atendimento à mulher — explicou.

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

— É preciso parar de perguntar à mulher "o que ela fez" quando esta chegar na delegacia para o registro do crime — observou ainda mais tarde, Dalva Kaiser.

Plano Estadual de Políticas Públicas para Mulheres

Atualmente, Santa Catarina não possui um Plano Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres, contou a pesquisadora Carmem Ramos. O que significa, em termos, que também não existem investimentos precisos para área, principalmente para campanhas de conscientização. O Cedim está planejando a criação do plano para ser apresentado no ano que vem. Para isso, os conselheiros fazem um trabalho de análise de dados para identificar todos os detalhes: idades das vítimas, raça, onde moram, grau de escolaridade, entre outros.

— Os números sozinhos não dizem nada. É preciso identificá-los para sabermos quais passos dar e onde investir — observou.Há dois meses, a central de atendimento do 180 — o disque denúncia da agressão à mulher — passou a ser atendido diretamente no Estado, e não mais em Brasília. O serviço está sendo realizado pela Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e ao Idoso (DPCAMI), em Florianópolis.

— O 180 vai nos oferecer dados muito precisos de frentes que precisamos agir — explicou a conselheira do Cedim.

Calçados serão doados

A organização conseguiu arrecadar, através de doações, cerca de 300 pares de sapatos para serem utilizados no ato realizado na Praça Fernando Machado. Todos eles serão doados para instituições de Florianópolis que atendem mulheres. 

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