Índios de Biguaçu lutam para preservar cultura do povo Guarani pelo conhecimento acadêmico - Geral - Hora de Santa Catarina

184 Anos17/05/2017 | 07h38Atualizada em 17/05/2017 | 07h38

Índios de Biguaçu lutam para preservar cultura do povo Guarani pelo conhecimento acadêmico

No aniversário da cidade que leva o idioma indígena no próprio nome, conheça as histórias das aldeias Mymba Roka, Yynn Moroti Wherá e o trabalho dos filhos de seu Alcindo, um xamã de 108 anos, para levar o conhecimento ancestral do pai à academia

Índios de Biguaçu lutam para preservar cultura do povo Guarani pelo conhecimento acadêmico Betina Humeres/DC
Seu Alcindo  Whera Tupã, 108 anos, fundador da aldeia Mymba Roka Foto: Betina Humeres / DC

"Vocês nos deixaram todo o seu ensinamento para podermos sobreviver e para que possamos repassar esta sabedoria para as futuras gerações, ensinando aos nossos filhos a observar as estrelas e o céu. Para aprendermos sobre os símbolos e seus significado, que nos ensinam de onde viemos. Nós, Guarani, somos filhos do sol, os guardiões do milho sagrado e do tabaco sagrado. Cada aldeia ainda terá as plantas sagradas enquanto o fogo sagrado estiver acesso. Vocês criaram a floresta para podermos ensinar nossos filhos a receber seus ensinamentos. Ensinaram também os cantos sagrados para rezarmos onde estivermos."
(Reza ao Pai Sol e à Mãe Terra de Alcindo Whera Tupã)

O Calendário Cosmológico Guarani (Apyka Mirim) orienta os índios sobre o tempo certo para a agricultura, artesanato, marés e a caça. Seguindo o que lê no céu por Nhanderu, Deus Verdadeiro, o líder espiritual Alcindo Moreira (Whera Tupã) chegou aos 108 anos de idade com vigor e saúde. Caminha ereto, tem os braços fortes e e ainda planta e colhe os frutos da Mãe Terra na Aldeia Mymba Roka, em Sorocaba de Dentro, região de difícil acesso a cerca de uma hora do centro de Biguaçu.

— Nós aprendemos com o Sol, que nos dá oportunidade de nos levantarmos todo o dia. Não fosse o Sol, o ser humano não sobreviveria, por isso devemos sempre nos lembrar dele e agradecer — orienta Alcindo enquanto mostra com orgulho a última colheita de abóboras. Na aldeia, ele cultiva também cana-de-açúcar, mandioca e os belos milhos coloridos, vermelhos, pretos, roxos, amarelos. O ancião é casado com Rosa Cavalheiro (Poty D'já), de 102 anos. Os dois são fundadores da aldeia que fica no final de uma estrada de chão batido e que corta um morro e a cachoeira do Amâncio. A Mymba Roca possui 600 hectares e 33 famílias.

Seu Alcindo mostra os milhos coloridos que plantou e colheu na aldeia Mymba Roka Foto: Betina Humeres / DC

O casal gerou oito filhos. Dois deles, Geraldo Moreira (Karai Okenda) e Wanderley Moreira (Karai Ivyju Miri), traduziram os conhecimentos milenares do pai para o universo acadêmico. Em 2015, eles apresentaram a monografia Calendário Cosmológico Guarani - Os Símbolos e as Principais Constelações na Visão Guarani como trabalho de conclusão do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, do Departamento de História da UFSC.

— Este trabalho começou a se desenvolver a partir das histórias contadas pelo seu Alcindo, conhecedor da cultura Guarani, que recebeu de seus ancestrais toda a sabedoria a ser repassada para seu povo. Ele conta muita história do início do mundo, a história do Sol e da Lua, de como vê o mundo dos mais jovens de hoje e também sobre o conhecimento da cosmovisão Guarani — escreveu Wanderley.

 Reflexo das Águas Cristalinas

Ele e o irmão Geraldo lecionam na Escola Indígena Wherá Tupã - Poty D'já, que homenageia o casal ancião. O colégio estadual fica em outra aldeia, a Yynn Moroti Wherá, às margens da BR-101 e que tem a poética tradução de "Reflexo das Águas Cristalinas". Isso porque a aldeia fica numa terra um pouco alta, e o sol que reflete no mar da Baía Norte traz uma linda paisagem com a Ilha de Santa Catarina ao fundo. A escola, construída em formato octogonal lembrando a casa de reza (opy), tem um currículo focado na cultura indígena e atende cerca de 50 crianças. História, por exemplo, é divida na eurocentrista e a dos povos originais do Brasil. O português é o segundo idioma. A língua materna é o guarani.

Aldeia Yynn Moroti Wherá, que em guarani significa reflexo das águas cristalinas Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

A coordenadora da escola é a professora Celita Antunes, 42 anos, estudante de Pedagogia na Univali. Ela explica que o trabalho desenvolvido na escola tem objetivo de fortalecer a cultura Guarani. Antes de entrar em sala de aula, por exemplo, os alunos se reúnem em uma pequena réplica da casa de reza, onde fazem uma roda para orar e recebem o conteúdo que será aplicado naquele dia. Entre as atividades que são promovidas, destaca-se a realização dos Jogos Tradicionais "Tchondaro Vy'a".

— Nós passamos a educação tradicional com os conhecimentos indígenas para que eles tenham orgulho de quem são e do nosso passado. Aqui eles são preparados para o vestibular, mas sem nunca querer deixar de ser índios — destaca.

Caso do Wesley Gonçalves Barbosa, de 9 anos e aluno da 3ª série da Wherá Tupã Poty D'já:

— Eu ainda não sei o que quero ser quando crescer, mas não pretendo sair da aldeia.

O pequeno Wesley Barbosa na casa de reza (opy) Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

"A gente não está vivendo 500 anos atrás"

 Celita é casada com o cacique Hyral Moreira, o primeiro Guarani a se formar em Direito em Santa Catarina. Aos 40 anos, é advogado das causas dos índios, além professor de idioma e Direito Ambiental e Indígena. Já foi consultor da Unesco para a questão da saúde do campo de indígenas e quilombolas no Sul do Brasil. Para o cacique, a maior dificuldade que atualmente os índios têm fora da aldeia é o preconceito.

— Muita gente pergunta: como um indígena anda de carro, tem casa? A gente não está vivendo 500 anos atrás! Mas parece que muitas pessoas têm a ideia de que é indígena vive num zoológico — protesta Hyral.

— Hoje eu sou um advogado, eu tenho a mesma capacidade técnica de qualquer outro advogado similar. Não diminui a minha pessoa por ser indígena, mas as pessoas ainda pensam: "intelectualmente deve ser inferior". Isso tem nos prejudicado muito. Às vezes você vai no mercado de trabalho e, por ser indígena, já tem um receio. Mas não é por falta de qualificação. Por isso, a gente prepara os nosso alunos para o mercado de trabalho mas já preparados para lidar com esse preconceito — completa.

A Escola Whera Tupã - Poty D'já, além de fortalecer a cultura Guarani, também é local de trabalho para a comunidade. Os 12 professores são índios da própria aldeia. As demais famílias, são 36 ao todo, têm como fonte de renda o trabalho rural e a construção civil.

Cacique Hyral é advogado e já foi consultor da Unesco Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

"O não-índio não dá valor à cultura indígena porque ele não a conhece"

O curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, que os filhos do centenário Alcindo concluíram, já está na sua segunda turma, com quatro estudantes de Biguaçu, todos professores na escola. Ao concluir, eles estarão habilitados para lecionar nos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

A coordenadora pedagógica do curso é a kaingang e antropóloga Joziléia Daniza Jacodsen, primeira estudante indígena da pós graduação da UFSC. Ela explica que o que diferencia esse curso dos tradicionais é a entrada do conhecimento dos sábios, um saber milenar que não é valorizado pela academia.

— O povo guarani é nosso vizinho, com sua língua, seus mitos. A partir do momento em que a sociedade não indígena aprende sobre o nosso vizinho, essa sociedade vai aceitar e tentar compreender a dinâmica dessas populações e valorizá-las — defende Jozélia.

— Esse conhecimento, traduzido para a universidade, é importante para o brasileiro perceber o valor que tem para nossa cultura brasileira — explica.

Cacique Hyral e a esposa, Celita Antunes, na casa de reza  Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Quem são os estrangeiros?

A primeira impressão que tive ao chegar nas aldeias Mymba Roka e Yynn Moroti Whera foi a de que lá estavam comunidades estrangeiras vivendo em Biguaçu, quando na verdade é justamente o contrário. Ao ouvir as crianças falando um idioma tão distante do português, entrar nas casas de reza, com sua arquitetura característica, e tentar decifrar os símbolos e os mitos guaranis, me dei conta que esta cultura tão rica e tão genuinamente brasileira nos foi e ainda é sonegada.

A ideia de homenagear as comunidades indígenas no aniversário de Biguaçu através desta reportagem é reconhecer os ancestrais desta terra, que deram nome a rios, morros, aves e à própria cidade, mas que não estão no seu verdadeiro lugar na memória e na história.

 Os índios em Biguaçu

 São quatro comunidades indígenas no município (todas Guarani), totalizando uma população de cerca de 500 pessoas.

* Os atendimentos em saúde são realizados por médicos e dentistas do Governo Federal nas aldeias; já a marcação de consultas e exames é efetuado pelo município.

Educação: as escolas de educação básica são mantidas pelo Governo do Estado.

* Assistência Social: os atendimentos são realizados pela Funai e Secretaria Municipal, com distribuição de cestas básicas e outros serviços.
Fontes: UFSC e Prefeitura de Biguaçu

Cidade indígena até no nome

Há algumas controvérsias quanto à origem do nome da cidade: uma versão diz que significa "Biguá Grande". Biguá é um pássaro aquático ainda hoje encontrado no Rio Biguaçu.

Já o padre Raulino Reitz, em seu livro "Alto Biguaçu" (1988), apresenta a versão de que o nome deve-se a uma árvore semelhante ao jambolão e chamada popularmente de "baguaçu".

Atualmente, o jornalista local Ozias Alves Júnior, através de uma pesquisa que contou com a ajuda do professor Aryon D. Rodrigues, um dos maiores especialistas em Tupi-Guarani do Brasil, afirma que a origem do nome Biguaçu vem da palavra "Guambygoasu" que significa "Grande Cerca de Paus" ou "Cerca Grande" (palavra usada pelos antigos índios Carijós).
Fonte: Prefeitura de Biguaçu

 
 
 

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