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RELIGIÃO E POLÍCIA13/06/2018 | 07h55Atualizada em 13/06/2018 | 07h55

Conheça a história do santo que está atrás das grades em Biguaçu

Igreja de São Miguel Arcanjo passa por reformas para a Festa do Divino, mas o padroeiro do templo está encarcerado

Conheça a história do santo que está atrás das grades em Biguaçu Felipe Carneiro/Diário Catarinense
Imagem tem um 1,4 metro de altura e foi esculpida em madeira com detalhes em ouro Foto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense

Um senhor aposentado, o filho dele e um apenado cumprindo medida socioeducativa trabalham diariamente na reforma da bicentenária Igreja de São Miguel Arcanjo, às margens da BR-101, em Biguaçu. O prédio, tombado como patrimônio histórico, agonizou nos últimos anos com descaso, infiltrações e cupins, mas agora volta à vida e se prepara para a Festa do Divino Espírito Santo em setembro, o mais tradicional evento religioso de Santa Catarina.

O sonho da comunidade de Balneário São Miguel é que o santo que dá nome ao templo volte para o altar da igreja. Trata-se de uma imagem de um 1,4 metro de altura vinda de Portugal no século 18, esculpida em madeira com detalhes em ouro. Um santo guerreiro, com espada, armadura e elmo romano, asas de anjo e que pisa numa serpente. Assim como sua casa, a imagem também é tombada. Só que a peça está dentro de uma cela na sede da Paróquia São João Evangelista, a sete quilômetros dali, no centro da cidade. Durante as festividades do Divino, como num indulto, o santo irá para a Igreja de São Miguel e depois volta para atrás das grades, onde é vigiado 24h por uma câmera de segurança da PM.

O motivo deste aparato de vigilância envolve a Polícia Federal e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em maio de 1979, a imagem foi furtada do templo, crime que enlutou a cidade. E teve muito mais objetos levados pelos bandidos - "sem Deus no coração", como dizem no bairro.

Diva Siqueira Sobrinha, com seus 70 anos vividos em São Miguel e religiosa ativa na rotina da igreja, tem uma lista de tudo que já foi levado do templo. Entre os itens, está um sino de bronze doado pelo rei Dom Pedro II em 1845, um cálice de ouro maciço, uma coroa e cetro de prata, além da espada e o cinturão de São Miguel. Só não levaram o sino principal, também presente do imperador em visita a Santa Catarina, porque é muito grande e talvez tenha faltado força.

 Igreja de Biguaçu
Igreja de São Miguel: sino da esquerda foi doado pelo rei Dom Pedro II em 1845 durante visita a Santa CatarinaFoto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense

Imagem encontrada 32 anos depois

Mas um milagre aconteceu. Trinta e dois anos depois, graças a uma denúncia no Iphan, o santo foi encontrado em uma loja de leilões de objetos de arte num shopping na zona Sul do Rio de Janeiro. Estava à venda por R$ 700 mil. O dono do antiquário disse para a Polícia Federal à época que comprou a estátua em São Paulo e não sabia que ela era roubada. A história nunca foi esclarecida.

Em dezembro de 2011, a imagem foi enviada para a sede da PF em Florianópolis. Padroeiro da Polícia Federal e chefe da milícia celeste, Miguel Arcanjo acabou sendo salvo e protegido pelo próprio órgão.

Para sair do prédio da Avenida Beira-Mar Norte, a Polícia Federal e o Iphan exigiram uma série de medidas de segurança, como as grades e a câmera de videomonitoramento. O santo está preservado em uma sala pequena abaixo de uma das torres da igreja matriz de Biguaçu, onde mesmo assim atrai fieis com frequência. A imagem sacra deve permanecer ali, já que a Igreja de São Miguel não oferece segurança. Ou seja, há um santo preso, e os ladrões estão soltos.

 Igreja de Biguaçu
Homem cumprindo medida socioeducativa trabalha diariamente na reforma da IgrejaFoto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense

Reforma deve ser entregue na semana que vem

A primeira igreja de São Miguel Arcanjo foi erguida em estuque (um tipo de argamassa) pelos imigrantes açorianos e inaugurada no dia 23 de janeiro de 1751. Ficou em ruínas e precisou ser demolida. Em 1798 foi construído o prédio atual, com tijolos em estilo luso-brasileiro. Nos últimos anos, a igreja foi esquecida pelo poder público. Fiéis iam para a missa em meio a goteiras, paredes com limo ou pretas pela infiltração, tábuas soltas no chão e o cupim destruindo as janelas. Em novembro do ano passado, por iniciativa dos próprios moradores, cansados de esperar por uma divina providência ou pelo poder público, começou a reforma do templo.

Os recursos vieram da paróquia e da comunidade do balneário, que se mobilizou. O encarregado é Laury Pazuch. A obra já chegou a ter oito pessoas trabalhando, mas na fase atual é apenas ele e mais dois. Já fizeram toda parte elétrica e hidráulica. No momento, estão terminando a pintura externa da igreja. Se tudo der certo, a ideia é entregar a obra na semana que vem. Para isso, eles precisam remover 11 túmulos que estão muito próximos da parede para poder instalar os andaimes. Falta localizar seis famílias dos mortos.

— Vamos fazer uma missa de ação de graças com os pedreiros e em homenagem a todos que ajudaram na reforma da igreja — planeja Laury.

Santo de casa não faz milagre

Diva Siqueira Sobrinha acompanha de perto a reforma e está sempre em busca de recursos. Ela tem uma relação muito próxima com a igreja. Diz que a mãe engravidou dela na época da festa do Divino Espírito Santo do bicentenário da fundação do templo. Por isso, espera viver até os 100 para presenciar os 300 anos da Igreja de São Miguel. Foi catequista da igreja e lembra com carinho da época bucólica da comunidade.

— Ainda consigo ouvir o barulho dos carros de boi trazendo mandioca, cana-de-açúcar. Lembro dos pescadores chegando, dos peixes secando ao sol. Depois veio a BR-101, essa serpente negra que já nos ceifou muitas vidas e destruiu nossas fontes de água, as árvores, a praia. Muitos moradores, seduzidos pelas indenizações, foram embora e nunca mais voltaram. O bairro de antes não existe mais.

Mas o que mais dói para Diva é o vazio da imagem de São Miguel Arcanjo.

— Se ele está numa grade de ferro lá, porque não pode ficar aqui também? Foi aqui que tudo começou, a verdadeira matriz de Biguaçu é São Miguel! — protesta.

A poucos metros da igreja fica o Museu Etnográfico de Biguaçu, prédio que conta com a proteção diária de um policial militar. Uma sugestão da idosa era que ele também protegesse a igreja. No entanto, o contrato do policial prevê que as atividades sejam restritas ao museu.

O padre José Luiz da Souza, responsável pela Paróquia São João Evangelista, diz que foi o Iphan que determinou que o santo ficasse onde está.

— Ele não está lá (em São Miguel) por falta de segurança, e nós não temos recursos para implantar esse sistema. Tem que cobrar do Iphan — sugere o clérigo.

 Igreja de Biguaçu
Dona Diva quer que a imagem de São Miguel volte para casaFoto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense

Iphan diz que igreja não é prioridade

O Instituto do Patrimônio, por sua vez, garante não há qualquer impedimento da sua parte ao retorno da imagem para casa. Segundo a entidade, é a própria comunidade não gostaria de trazer de volta o santo sem instalações de segurança adequadas e que impedissem um novo furto.

Sobre a reforma, a superintendente do instituto, a arquiteta Liliane Janine Nizzola, explica que os restauros são analisados nacionalmente junto com a Mitra, pessoa jurídica da Arquidiocese de Florianópolis. Juntos, eles elencam as prioridades nacionais.

— Desta forma, considerando o contexto brasileiro, no momento atual a Igreja de São Miguel em Biguaçu não integra do rol de bens a serem restaurados pelo Iphan, ficando a encargo da Mitra o fazer.

O Iphan esclarece, por fim, que a manutenção de bens tombados é obrigação do proprietário, sendo previsto em lei o auxílio da União quando comprovada a falta de capacidade financeira. Mesmo assim, forneceram um andaime para ajudar na manutenção da cobertura e das partes altas.

— Além disso, o Iphan, a pedido da comunidade, contratou projeto para instalações de segurança na Igreja, buscando contribuir para o retorno da imagem, recuperada no Rio de Janeiro também através da atuação do Iphan — argumentou Liliane.

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 Igreja de Biguaçu
Foto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense


 

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