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SUPERAÇÃO26/07/2018 | 20h11Atualizada em 26/07/2018 | 20h14

Pacientes com laringe eletrônica formam coral em Florianópolis

Eles perderam as cordas vocais, mas venceram o câncer e, mesmo com a voz metalizada, cantam e tem uma mensagem para dizer

Pacientes com laringe eletrônica formam coral em Florianópolis Leo Munhoz/Diário Catarinense
Melissa Ribeiro (E), que se curou do câncer de laringe no Hospital Baía Sul, luta pelos direitos dos laringectomizados Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

"Jamais algum poeta teve tanto pra cantar!". O trecho do Rancho de Amor à Ilha tem um significado muito mais forte para os amigos do grupo Cantarolar: um coral formado por pessoas que perderam as cordas vocais para o câncer, mas venceram a doença e voltaram a falar e cantar, mesmo que com uma voz metalizada. Foi com o hino de Florianópolis que o coral iniciou sua apresentação nesta quinta-feira (26) no Hospital Baía Sul.

Os pacientes internados, que formaram a plateia, mesmo numa cadeira de rodas ou tomando soro na veia saíram dos quartos para prestigiar o grupo. Sem saber, eles estavam ajudando no tratamento dos cantores, que não se resume apenas às sessões de fonoaudiologia.

— A voz pode não ser a mesma e pode até incomodar. A gente não pode mais tomar banho de mar, mas a gente canta, a gente dança, a gente abraça os nossos amigos, a gente faz o bem. Então não é só curar o câncer, é voltar para a sociedade e ser aceito pela sociedade. E o coral está resgatando a nossa dignidade — destacou emocionada a publicitária Melissa Ribeiro, que se curou do câncer de laringe no Baía Sul e é a grande entusiasta do coral.

Ela luta pelo direitos dos laringectomizados no Brasil através da Associação Câncer Boca e Garganta (ACBG), entidade que preside. A doença é causada principalmente pelo cigarro e o álcool, mas há outras causas como o HPV e fatores genéticos. São cerca de 12 mil nessa condição hoje no País. Depois de vencida a luta contra o câncer e a remoção do órgão do corpo, o SUS não promove a recuperação vocal dos pacientes. Essa é a bandeira da ACBG - o tratamento gratuito. A entidade foi criada há três anos e foi através dela que outros pacientes se conheceram. Daí surgiu a ideia do coral.

Seu Odalino Melo, de 60 anos, mais conhecido como Bombril, usa uma laringe artificial há dois anos, mas não perde o bom humor. Gosta de brincar com a nova voz metálica e diz inclusive que é o melhor cantor do grupo Cantarolar – quando está só ele. Também garante que não tem do que reclamar desde que foi aposentado por causa da doença.

— Eu tenho um amigo em Brasília que me manda um dinheirinho todo mês, o Michel, conhece? 

Foi no coral que ele conheceu o senhor Celso Aníbal, de 67, que canta, toca gaita e pandeiro no grupo. Ao contrário do Bombril e da Melissa, Celso usa uma prótese traqueoesofágica. No caso, ele só precisa apertar um botão no pescoço para falar, e a voz sai mais clara do que com a laringe eletrônica. No entanto, o organismo de grande parte dos pacientes acaba rejeitando a prótese. O idoso reclama que os laringectomizados sofrem preconceito por causa da condição da voz, que por soar estranha e às vezes incômoda às demais pessoas.

Mesmo que incomode, o Celso, o Bombril e a Melissa vão continuar o projeto Cantarolar. Seja pela autoestima, pela alegria ou pela luta pelos seus direitos. Afinal, esses poetas jamais tiveram tanto pra cantar.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 26-07-2018: Pacientes que venceram o câncer de garganta e usam laringe eletrônica formam coral em Florianópolis. Na foto Odalino Melo.
Seu Odalino Melo, de 60 anos, mais conhecido como Bombril, usa uma laringe artificial há dois anosFoto: Leo Munhoz / Diário Catarinense
 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 26-07-2018: Pacientes que venceram o câncer de garganta e usam laringe eletrônica formam coral em Florianópolis. Na foto Melissa Ribeiro.
Celso Aníbal (D) usa uma prótese traqueoesofágicaFoto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Previna-se

 Atenção: nesta sexta-feira acontece o Dia Mundial de Conscientização e Combate ao Câncer de Cabeça e Pescoço. Por isso, qualquer pessoa pode realizar exames preventivos no Hospital do Cepon, no Itacorubi, das 8 as 16 horas. O trabalho gratuito é promovido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP). Os interessados devem levar um documento com foto e um comprovante de residência, para fazer o cadastro.

O setor de Oncologia Clínica do Cepon, atendeu no último ano, entre os meses de abril de 2017 e março de 2018, 93 pacientes com câncer de cabeça e pescoço. A cura do câncer de cabeça e pescoço existe, mas a possibilidade de curá-lo vai depender do quão rápido ele for descoberto. No Brasil, em mais de 70% dos casos o paciente só procura o médico quando a doença já está em estado avançado, o que dificulta a efetividade do tratamento.

No Cepon, com o novo centro cirúrgico, todos os pacientes com a doença e com essa indicação de tratamento estão sendo operados. O tempo máximo de espera para as cirurgias tem sido em torno de 15 dias. O procedimento é considerado curativo pelos médicos, sendo o principal tratamento para os cânceres.    
 

 

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