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Maracaibo15/08/2018 | 20h10

Cidade venezuelana sem luz após incêndio em viaduto igual ao que desabou em Gênova

AFP
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Alimentos estragados, comércios desertos e pessoas dormindo em seus quintais: este é o cenário na cidade venezuelana de Maracaibo após seis dias de falhas elétricas, um mal crônico que se agravou com um incêndio no viaduto igual ao que desabou na terça-feira em Gênova.

Os apagões são habituais no estado petroleiro de Zulia, cuja capital é Maracaibo, mas desta vez "o pesadelo foi mais longo", se queixou Roxana Peña, moradora do município San Francisco, próximo ao viaduto afetado.

Com 8,6 quilômetros de extensão, o viaduto General Rafael Urdaneta cruza o Lago de Maracaibo e foi projetado pelo italiano Riccardo Morandi, também responsável pelo viaduto Morandi, que desabou em Gênova e deixou 39 mortos.

A estrutura do de Maracaibo, inaugurado em 1962, permaneceu fechada entre sexta e segunda-feira depois que pegou fogo uma das redes elétricas que passa pela ponte em um ponto próximo a uma de suas entradas.

O incidente deixou sem luz e praticamente isolados do resto do país San Francisco e Maracaibo, onde vivem quatro milhões de pessoas.

O governo socialista assegura que se tratou de uma sabotagem, justificativa recorrente para explicar as panes elétricas no país.

A passagem pelo viaduto continuava restrita nesta quarta-feira pelas reparações do cabeamento.

- Como 'zumbis' -

Devido à falta de eletricidade, milhares de pessoas perderam a comida que tinham em suas geladeiras, um drama considerando os elevados preços dos alimentos por uma inflação que o FMI projeta em 1.000.000% para 2018.

De Bianca Urdaneta estragaram dois frangos, três quilos de carne, um de costela e outro de peixe. "Era a comida de 10 dias", lamentou a mulher de 35 anos no sul de Maracaibo.

Desde o incêndio no viaduto, os apagões duram entre 14 e 16 horas diárias. O calor asfixia, com temperaturas que superam os 40ºC.

"Estamos há seis noites dormindo no quintal para suportar o calor. Não se pode comprar comida que precise ficar na geladeira, estamos fazendo uma comprinha diária em um local que tem gerador", contou à AFP Lilia Urdaneta, moradora do setor La Floresta.

É como "estar em um filme de zumbis sem ser pago. Sem luz no trabalho, em casa. É terrível", explica Rubén Quiñónez, funcionário no centro de Maracaibo.

Comerciantes de Las Pulgas, o maior mercado a céu aberto da cidade, perderam centenas de quilos de carne.

Nos mercados estão vendendo o que está prestes a estragar, ou que já estragou, e "as pessoas estão comprando", relata Carolina Pérez, designer gráfica de 35 anos.

Mas essas transações dependem dos caixas eletrônicos pela severa escassez de dinheiro em espécie. Mas as máquinas não funcionam sem luz e Internet.

- Sem caminho alternativo -

O incêndio, somado à tragédia de Gênova, levou muitas pessoas a se perguntar sobre o estado do viaduto Rafael Urdaneta.

Segundo Marcelo Monot, ex-presidente do privado Centro de Engenheiros de Zulia, os pilares não são revisados há mais de duas décadas.

Além disso, acrescentou Monot, o "sistema de pesagem não funciona há anos, pelo qual não estão calculando o peso dos veículos de carga, o que representa um risco".

As estradas na Venezuela são operadas exclusivamente pelo Estado, como parte de seu modelo de intervenção da economia.

O viaduto é a única forma de cruzar o Lago de Maracaibo.

Como via alternativa foi criada a ponte Nigale, mas "só está 17% pronta em 12 anos", sustentou Monot, em alusão a uma das obras não terminadas pela empreiteira Odebrecht na Venezuela.

Especialistas da Universidade de Zulia (pública), do Centro de Engenheiros e da Câmara de Construção preparam um relatório sobre o estado do viaduto que cruza o lago, e que entregarão ao governo.

"Não vamos fazer nenhum diagnóstico irresponsável (...) nem cair no sensacionalismo", declarou à AFP Enrique Ferrer, presidente da Câmara de Construção.

Será um trabalho gratuito que busca "acalmar a população" sobre as verdadeiras condições da estrutura, acrescentou.

* AFP

 
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