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Riade10/08/2018 | 19h35

Política de linha dura ameaça exacerbar críticas à Arábia Saudita

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A Arábia Saudita quer calar as críticas com uma política externa de linha dura, mas o mortífero bombardeio aéreo no Iêmen e a crise diplomática com o Canadá aumentarão a pressão internacional sobre o Reino, avaliam alguns analistas.

Ao menos 29 crianças morreram na quinta-feira em um ataque aéreo atribuído à coalizão militar liderada por Riade, em uma província controlada pelos rebeldes huthis no norte do Iêmen, o que provocou uma onda de reprovação e pedidos de investigação da ONU e até dos Estados Unidos, aliado da Arábia Saudita.

A coalizão afirma que atacou um ônibus com "combatentes huthis".

"Esta guerra tem cada vez menos adeptos entre a comunidade internacional, especialmente no Congresso americano", disse à AFP Sigurd Neubauer, especialista independente em países do Golfo, recordando que o conflito no Iêmen em três anos provocou "a pior crise humanitária" do planeta.

"Este tipo de ataque lamentavelmente se tornou uma regra e não uma exceção".

A coalizão foi acusada várias vezes de bombardear civis no Iêmen desde o início de sua intervenção, em 2015, destinada a restabelecer o governo expulso do poder pelos rebeldes huthis, apoiados pelo Irã.

Os sauditas qualificaram o ataque de quinta-feira de "operação militar legítima", justificado como uma resposta ao lançamento de um míssil dos rebeldes no dia anterior contra a cidade saudita de Jizan, que matou uma pessoa.

Mas diante das persistentes críticas internacionais, a coalizão anunciou na sexta-feira a abertura de uma investigação.

"Chega de desculpas!" - escreveu no Twitter Geert Cappelaere, diretor de Oriente Médio e África do Norte do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). "O mundo precisa realmente ver mais crianças inocentes mortas para deter esta cruel guerra do Iêmen?".

"Grotesco, vergonhoso, indignante. Flagrante desprezo pelas regras da guerra quando um ônibus com crianças inocentes se torna um alvo", disse o secretário-geral do Conselho Norueguês para os Refugiados, Jan Egeland.

- "Calar as críticas" -

A polêmica sobre este mortífero bombardeio ocorre após a ruptura diplomática do Reino com o Canadá esta semana.

As autoridades sauditas, indignadas após a embaixada canadense pedir publicamente a "libertação imediata" de militantes dos direitos humanos detidos no Reino, expulsaram o embaixador do Canadá, congelaram as relações comerciais e suspenderam as bolsas de estudos de seus cidadãos no país norte-americano.

Esta reação virulenta por uma declaração pode afetar os esforços de Riade para atrair investimentos externos, indispensáveis para o ambicioso projeto destinado a reduzir a dependência saudita ao petróleo, segundo especialistas.

A crise diplomática com o Canadá mostra como a Arábia Saudita do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman não tolera críticas, tanto internas como externas, destacam os analistas.

"Os dirigentes sauditas não estão especialmente preocupados com a influência que possa ter o Canadá (...) e desejam calar as críticas por parte dos países europeus que possam surgir a respeito de outros temas", segundo a consultoria de avaliação de risco Eurasia.

- Descontentamento crescente -

O Canadá lamentou que as potências ocidentais, em especial os Estados Unidos, vendam milhões de dólares em armas à coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen.

"Na ausência de uma posição forte dos Estados Unidos sobre os direitos humanos e os valores democráticos, os dirigentes árabes estão cada vez menos inclinados a tolerar os conselhos dos ocidentais sobre as reformas políticas", avalia a Eurasia.

"O presidente (Donald Trump) fez das relações com Riade um elemento central de sua política para o Oriente Médio, mas o descontentamento é crescente no Congresso", explicou à AFP Perry Cammack, da Fundação Regional para o Irã.

"Entre o aumento das tensões diplomáticas com o Canadá e as atrocidades contínuas no Iêmen, é muito possível que o Congresso tente restringir de maneira significativa a intervenção americana no conflito iemenita", segundo Cammack.

* AFP

 
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