Dia do Professor: Tarso supera barreiras e sente-se realizado ao dar aulas a jovens e adultos - Geral - Hora de Santa Catarina

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Parabéns!15/10/2018 | 06h33Atualizada em 15/10/2018 | 10h04

Dia do Professor: Tarso supera barreiras e sente-se realizado ao dar aulas a jovens e adultos

Educador cego ensina geografia na modalidade EJA em Florianópolis

Dia do Professor: Tarso supera barreiras e sente-se realizado ao dar aulas a jovens e adultos Diorgenes Pandini/Diário Catarinense
Descrição da foto: Tarso está parado na varanda de casa, com o corpo voltado para fora e com um sorriso no rosto Foto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

O professor Tarso Germany Dornelles surfa, toca violão e é casado com a também professora Maíra de Abreu. Formou-se em geografia pela PUCRS e atualmente faz mestrado na UFSC. Diariamente ele sai de casa, que fica em uma rua esburacada do Rio Vermelho, em Florianópolis, e pega de quatro a seis ônibus para dar aulas na Educação para Jovens e Adultos (EJA) dos bairros Ratones, Saco Grande e Santo Antônio de Lisboa.

Nessa modalidade de ensino, ele encontra brasileiros que não conseguiram concluir o ensino fundamental ou médio na idade certa, mas que ali encontram o apoio de professores abnegados, como o próprio Tarso, que perdeu a visão ainda criança devido a um glaucoma e segue a vida normalmente. E o educador se preocupa com o futuro desses jovens.

— São alunos que saíram da escola porque tinham de trabalhar, não compreendiam bem o conteúdo, incomodavam, eram deficientes e a escola não conseguia atender ou, ainda, meninas que engravidaram cedo. São alunos que carregam muitos traumas — ilustra o jovem educador de 27 anos.

Por isso, a metodologia de ensino que aplica é bem diferente da escola tradicional. Tarso e seus colegas trabalham com a chamada “Pesquisa como Prática Pedagógica”. Nesse método, os alunos escolhem um tema de preferência, com base na própria experiência de vida, e desenvolvem uma pesquisa que abranja o máximo de questões multidisciplinares possíveis.

— Um menino que gosta de andar de skate, por exemplo, pode encher a pesquisa com questões de matemática: por que a manobra se chama 360º? E também de geografia: quando e onde começou o skate? Foi numa seca na Califórnia nos anos 1970. Tem aí uma questão climática importante. E assim eles vão estudando, lendo, vendo vídeos —explica.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 12.10.2018: Professor Tarso é um dos exemplos para o dia dos professores. É formado pela PUC-RS e atua como ACT na EJA em Florianópolis. Ele fala sobre as dificuldades no mercado e de todas as barreiras que encontra criadas por quem não compreende sua deficiência visual. (Foto: Diorgenes Pandini/Diário Catarinense)Indexador: Diorgenes Pandini
Descrição da foto: Tarso segura um mapa de Florianópolis feito em relevo por Tamara Régis, aluna de doutorado em geografia na UFSCFoto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

“Tu nunca vais ser professor”

Da época do curso de geografia em uma universidade particular, Tarso lembra que a maior dificuldade eram as atitudes dos colegas e professores que, sem querer ou não, tornavam as pessoas com deficiência inferiores dentro da sala de aula. Apesar da deficiência física, ele deixa claro que nunca quis ser tratado como vítima, pois sempre teve oportunidades na vida.

— Eu tive um professor que me disse: ‘tu sabe que nunca vai conseguir dar aula, nunca vão deixar’. E eu concordei com ele na hora. Mas eu tive condição de tentar. Se é alguém com pouca autoestima, não teria conseguido — reflete.

Mas esse tipo de comentário não o abateu. Muito crítico e convicto da profissão que escolheu, segue na luta para se reafirmar cotidianamente. Por isso, pretende concluir o mestrado e fazer doutorado, mas sem deixar os alunos que considera excluídos da escola tradicional, além de lutar por melhores condições de trabalho para a categoria.

— Meu sonho é poder ganhar o suficiente bem para fazer o que eu gosto dentro do trabalho que eu estou hoje, que é na EJA. É um trabalho importante e que funciona, dentro das suas limitações. É uma das minhas vontades continuar nisso, mas efetivado e não como um substituto.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 12.10.2018: Professor Tarso é um dos exemplos para o dia dos professores. É formado pela PUC-RS e atua como ACT na EJA em Florianópolis. Ele fala sobre as dificuldades no mercado e de todas as barreiras que encontra criadas por quem não compreende sua deficiência visual. (Foto: Diorgenes Pandini/Diário Catarinense)Indexador: Diorgenes Pandini
Descrição da foto: Tarso está sentado no chão tocando seu violão, ao lado da esposa, a também professora MaíraFoto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

Modalidade oferece vários desafios

Na avaliação de Tarso, foi necessário mudar a forma de ensinar na modalidade EJA porque o modelo tradicional não funcionou com esses alunos no passado. E isso vem dando resultados. Contudo, considera que a falta de estrutura dificulta a evolução do programa em Florianópolis. Ele diz que são poucos professores e todos admitidos em caráter temporário (ACT), ou seja, substitutos.

— Eu nunca consigo pegar o mesmo lugar (no ano seguinte). É ruim para mim, mas é pior para os alunos. Porque o professor o está acompanhando e no ano seguinte entram novos professores. Então começa tudo de novo.

Outra questão que o educador destaca é a transferência de alunos acima de 15 anos. Tarso conta que no Saco Grande, um dos bairros onde leciona, tem muitas famílias de outros Estados, que vieram para SC com os filhos em idade avançada para a rede escolar. E mesmo que tenham boas notas, se passaram da idade máxima, são mandados para a EJA.

— A gente fica triste, porque poderiam ser atendidos na escola regular —avalia.

Diante das colocações do professor, a Hora procurou o secretário de Educação de Florianópolis, Maurício Fernandes Pereira. Ele informou que o número de estudantes com distorção idade/ano no ensino fundamental vem diminuindo após a adoção de políticas de correção de fluxo, que possibilita aos estudantes concluir o fundamental aos 14 anos. “Entretanto, enquanto modalidade da educação básica, na etapa do ensino fundamental, é destinada a estudantes a partir dos 15 anos. Assim, esses sujeitos são estudantes legítimos da EJA e precisam ser acolhidos”, diz em nota.

Quanto à juvenilização da EJA, salienta que é uma realidade nacional e acontece porque a população está envelhecendo, enquanto os não escolarizados estão desaparecendo. E destaca que, na EJA da rede de Florianópolis, menos de 30% são jovens entre 15 e 17 anos.

Quanto aos professores serem ACT, uma boa notícia para Tarso neste 15 de outubro, Dia do Professor. Pereira informou que, em 2019, a prefeitura deverá fazer um concurso público. Mas ponderou que o fato de os profissionais serem substitutos não impacta na qualidade do trabalho, já que a proposta pedagógica parte do interesse dos estudantes.

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