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Paris09/11/2018 | 10h36

A arte depois de 1918, explosiva e em busca de novos horizontes

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O horror dos combates da Primeira Guerra Mundial provocou na arte uma renovação em busca de inspiração. Grupos de artistas abraçaram o sonho surrealista, a denúncia social ou o retorno à pintura figurativa.

As vanguardas (cubismo, expressionismo e arte abstrata) estavam completamente formadas entre 1905 e 1914, antes do início da guerra, destacam especialistas desse período.

O que acontece em 1917/18 é que a "tristeza terrível" se reflete na expressão artística, "marcada por imagens congeladas, cores escuras", explica à AFP o professor Peter Read, da Universidade de Kent.

"A civilização faliu. Os artistas realizam uma campanha de desmoralização para reinventar o mundo. Há interesse em Marx - transformar o mundo - e em Rimbaud - mudar a vida", acrescenta.

O front também separou muitos artistas que eram amigos. Novos grupos são formados.

Segundo Claire Garnier, do Museu Picasso de Paris, ex-curadora da exposição "1917", é necessário "desconstruir a ideia" de que a arte moderna nasceu completamente das reações à guerra.

"O dadaísmo nasceu em 1916 - ressalta - A reação a posteriori é mais observável na Alemanha do que na França ou na Inglaterra: os artistas alemães descrevem o front e suas consequências".

"Há uma mudança em direção à fotografia e ao cinema, mais eficaz" do que a pintura para descrever os combates, embora poucos artistas tenham passado pelas trincheiras, explica.

Os debates são intensos entre 1916 e 1918 nos cafés parisienses, centro da efervescência artística na época em que escritores como André Breton ou Louis Aragon abrem caminho para o surrealismo.

Em toda a Europa, movimentos artísticos desorientados buscam uma resposta ao trauma: estética da máquina com o cubismo-realismo ou o precisionismo, formas e cores puras e harmoniosas com o movimento holandês De Stijl, desapropriação das formas com o Bauhaus alemão; construtivismo (especialmente na Rússia) com seus elementos geométricos.

Também a pintura metafísica, de Giorgio de Chirico, mística, misteriosa, sobretudo dadaísta. A vingança da provocação, do irracional.

Outra fonte de inspiração foi a sátira dos expressionistas alemães, que descrevem a corrupção, a prostituição de um mundo que volta aos velhos caminhos.

- Aura de Freud -

O dadaísmo nasciou em Zurique e Tristan Tzara o levou para Paris durante uma visita a André Breton, abrindo assim a porta ao surrealismo.

Os pintores se radicalizam na escolha dos temas, explica a historiadora Annette Becker, professora da Universidade de Nanterre.

"Estou convencida de que (Marcel) Duchamp pensava nas trincheiras em 1917 quando concebeu seu famoso mictório, uma piada num momento em que há tantos homens mutilados, mesmo sexualmente", cita à AFP como um exemplo.

Freud exerce sua aura: trata-se de "buscar um futuro melhor, mergulhando nas profundezas do inconsciente, na reação ao espírito demasiado automático", contra o mundo da máquina, "no qual o homem é uma pequena engrenagem", diz Peter Read.

Algumas experiências do pós-guerra são fontes de inspiração. O delírio de soldados chocados pode inspirar a escrita automática.

Outros como Picasso aspiram a ordem. Seu retorno à pintura figurativa é controverso.

"Picasso cria escola e muitos artistas que tinham sido cubistas e futuristas voltam a um estilo clássico da figuração, a modelos renascentistas. Eles viram como a sociedade eclodiu e buscam amarras, uma base sólida", explica o pesquisador britânico.

"Todos os artistas pintam como antes, mas cenas de terrível crueldade. Entre os alemães a dor é ainda maior, por exemplo com Grosz, Dix e Beckmann", lista Annette Becker. Os alemães derrotados foram os que pintaram mais mendigos, os mutilados da guerra.

- De Moscou a Nova York -

Na Rússia, a revolução bolchevique havia criado ebulição artística, mas o regime comunista acabou freando o movimento, o que desembocou no realismo socialista.

Nos Estados Unidos, as novas escolas são importadas da Europa. Já acontecia durante a guerra. Primeiro chegaram a Nova York com artistas como Francis Picabiaey Marcel Duchamp, que substitui um certo academicismo.

Ricos colecionadores subvencionam o dadaísmo, o surrealismo, a art nouveau. E até surge um movimento de artistas negros no Harlem.

* AFP

 
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