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Laranja não cai longe do pé12/08/2017 | 08h12Atualizada em 12/08/2017 | 08h12

Especial Dia dos Pais: conheça a história da família Pereira, com três gerações na pesca de Florianópolis

Avô, pai e neto seguem a mesma profissão e lutam pela valorização do trabalho do pescador 

Especial Dia dos Pais: conheça a história da família Pereira, com três gerações na pesca de Florianópolis Felipe Carneiro/Agencia RBS
Geninho, Kauan e seu Tico, junto da embarcação mais famosa da Barra: a Tarada Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Quando o jovem manezinho Kauan Pereira falou para a família que queria ser pescador quando adulto, ninguém apoiou. Só o que ele escutava era que a profissão era difícil demais, pouco valorizada, e que precisava tirar isso da cabeça. Até foi colocado em uma escola mais afastada do mar, para esquecer a ideia. Mas isso não aconteceu. Aos 18 anos, Kauan está decidido: será pescador e, se possível, patrão de barco.

O exemplo de dedicação e respeito à profissão, ele aprendeu dentro de casa. Como diz seu avô, Zilto Eugênio Pereira, 68 anos, o conhecido seu Tico, "uma laranja não cai muito longe do pé".

O pai de Kauan, Eugênio Zilto Pereira, 44, o Geninho, é pescador de tainha, anchova e corvina. Geninho, por sua vez, é filho do seu Tico, experiente e conhecido pescador da Barra da Lagoa, em Florianópolis. O pai de seu Tico, conta ele, assim como seu avô, já eram pescadores também.

— Até onde sabemos, o Kauan deve ser a quinta ou a sexta geração de pescador na família — disse seu Tico.

E as dificuldades na vida de um pescador, como enfatizam Geninho e seu Tico, não estão só no fato de ficar longos período mar adentro e a incerteza de dinheiro todos os meses. Estão no investimento que é preciso fazer em uma embarcação, na responsabilidade de manter uma tripulação e principalmente, os baques, a cada ano, de mudanças na legislação da pesca.

— Ano passado, não conseguimos pescar. Foi o ano de uma das maiores safras de tainha no Estado, e nós, sem licença. É uma dor no coração não ter autorização para trabalhar. Por isso que a gente queria que o Kauan seguisse outro caminho. Muita gente está largando a pesca por causa disso. Será que ele vai encontrar uma boa tripulação para trabalhar com ele, mesmo com tanta dificuldade? E mesmo assim, não teve jeito. Ele adora — revela, aos risos, Geninho.

Passado o susto de ver o neto querer seguir os mesmos passos, seu Tico agora já pode confessar: dá aquele orgulho ver o menino seguindo o caminho do mar. Até porque, como bem ele diz, essa vida de pescador tem muita dificuldade, mas também tem muita felicidade.

Orgulho de ser pescador, em três gerações Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Desde que se conhece por gente, seu Tico é pescador. De dez irmãos (cinco homens e cinco mulheres), ele foi o único que seguiu a profissão do pai. Começou a pescar na praia, depois na Lagoa da Conceição, passou da rede de barbante para a de náilon, e seguiu a vida trabalhando para empresas de pesca, como tripulante de embarcação. Sempre saindo de Floripa, seu Tico pescou 25 anos no Rio Grande do Sul, seis anos no Rio de Janeiro, outros seis anos em Santos, e cinco em Itajaí. Nesse período, Geninho nasceu e foi crescendo no meio das redes.

— Eu comecei a pescar siri aqui na frente de casa, no canal. E aí fui saindo de barco, vez ou outra. E até que fui numa viagem para o Rio Grande do Sul com o pai. Tinha 12 ou 13 anos — lembrou Geninho.

Veja o vídeo da conversa com essa família querida da Barra da Lagoa:

A história do Tarada

Vida de pescador é pesada. Tem mês de fartura, e mês de muito azar. Foi num período de maré ruim para peixe — quatro meses sem salário — que seu Tico, numa conversa com a mulher, decidiu não ficar mais fora de casa para pescar para os outros, mas sim para si próprio, com sua própria embarcação. Pagou fiado uma rede para pescar camarão, e deu certo.

— Quando trabalhei no Rio Grande do Sul, tinha uma embarcação que sempre pegava muito camarão, que se chamava Tarada. Prometi pra mim mesmo que se um dia tivesse um barco, ele se chamaria Tarada. Para trazer sorte. E digo que funcionou — explicou seu Tico.

E aí nasceu o Tarada, o primeiro barco da família Pereira da Barra da Lagoa.

Da pesca para a mecânica, da mecânica para a pesca

As dificuldades chegaram, em um momento, a afastar Geninho da pesca. Ele já estava mais velho, noivo de sua mulher, Andréia da Silva Pereira, hoje com 43 anos, e queria construir casa, família. Mas a grana não era nunca suficiente para os planos do casal.

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

— Decidi ir atrás de um emprego como mecânico. Trabalhei dois anos na área. Até quando meu próprio patrão falou que eu deveria voltar a trabalhar com meu pai. Quando via meu pai no barco, sozinho, sem eu estar do lado o acompanhando, me cortava o coração. Eu deveria estar ali. Esse era o meu lugar — revelou Geninho.

E lá foi o filho, novamente, trabalhar como pai. E o bastão, aos poucos, foi passando para ele. Um novo barco, o Tarada I, pintou na área, e é o barco que a família usa até hoje para seu sustento. É um dos maiores da Barra. E um dos mais populares também.

— O pessoal, quando vê o nome do barco, se acaba. Precisa parar ali no trapiche para fazer foto ao lado do nome Tarada — conta Andréia, que também fez carteira para pescadora.

Lições de quem entende

Kauan sabe que tem os melhores professores em casa, apesar de que hoje trabalha em uma embarcação de outra família da Barra — que também tem três gerações de pescadores. Mas não perde a oportunidade de sair com o pai e o avô. Espera, ansiosamente por suas férias escolares, para poder viajar ao Rio Grande do Sul e pescar na região da Lagoa dos Patos por um mês inteiro. Mar, realmente, é o seu negócio.

No ano passado, quando seu pai precisou passar por uma cirurgia e não pode viajar a trabalho com seu Tico, imaginem só o que este menino fez: se escalou para ir no lugar do pai, é claro.

— Ele disse que ia com o avô, porque conhece melhor todas estas novas tecnologias da embarcação, coisa que eu não tenho muito experiência. Então a gente foi, avô e neto. E ele fez tudo certinho — observou seu Tico.

Para o avô, é até mais fácil trabalhar com quem é da família, porque como ele brinca, dá para dar um puxão de orelha maior. Kauan não se mostra rancoroso com isso, não.

— Se tem puxão de orelha, é porque eles querem que eu aprenda. E é isso que eu quero _ disse o manezinho.

Se depender do Kauan, a Barra da Lagoa verá versões do Tarada II, III. Porque ele não pretende mudar o nome. É coisa de família. É coisa de pai, para filho, para neto. E quem sabe, bisneto.  

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