"Ele fez eu me relacionar com ele ou mataria o meu filho" - Polícia - Hora

Homicídio13/12/2014 | 13h28Atualizada em 14/12/2014 | 21h11

"Ele fez eu me relacionar com ele ou mataria o meu filho"

Mulher que atirou 12 vezes no ex conta o drama que viveu

"Ele fez eu me relacionar com ele ou mataria o meu filho" Léo Cardoso/Agencia RBS
Ana Raquel chegou a registrar 20 boletins de ocorrência contra o ex. Foto: Léo Cardoso / Agencia RBS

"Meu nome é Ana Raquel Santos da Trindade. Estou no momento presa no Presídio Feminino de Florianópolis. Tenho 29 anos, aguardo julgamento por homicídio... Minha história começa em fevereiro, ou início de março de 2013. Creio que agora que o Renato morreu posso correr o risco de contar o que eu vivi".

É assim que a massoterapeuta começa a contar o seu drama em uma carta escrita em papel higiênico, no Presídio Feminino de Florianópolis, onde ficou 24 dias e saiu na última terça-feira sob aplausos das detentas. Ela ficou conhecida depois de atirar 12 vezes contra o ex-namorado — que ela considera um torturador, e não alguém com quem teve um relacionamento —, acertando nove tiros.

O fato ocorreu na casa onde ela morava, na praia de Ingleses, em Florianópolis, em 16 de novembro. O empresário Renato Patrick Machado de Menezes, 35 anos, morreu no último dia 5. Ana Raquel responde pelo crime em liberdade.

Para a psicóloga clínica Maisa Brauner Velasquez, o grau de tortura física e psicológica ao qual Ana Raquel diz ter sido submetida pode ter feito com que ela não encontrasse outra forma de se defender.

— Provavelmente, ela estava em uma situação de desespero tamanho que sentia, ao mesmo tempo, medo, ansiedade e pressão. Isso pode levar alguém a fazer aquilo que não quer, como matar alguém. Ela pode ter perdido o controle a ponto de nem se dar conta que tinha atirado tantas vezes — diz a psicóloga.

Ana Raquel não fala sobre a origem da arma, mas diz que a comprou para se defender e para proteger o filho, de 5 anos — a jovem fez pelo menos 20 ocorrências policiais contra o empresário. Ela afirma que era tratada como uma escrava sexual.

A delegada Débora Dias, da Delegacia para a Mulher, encoraja as mulheres vítimas de violência a procurarem a polícia nesses casos:

— A mulher deve buscar ajuda, não deve viver a situação de violência sozinha, porque o agressor se sente fortalecido.

Confira, abaixo, uma entrevista com Ana Raquel:

RBS — Como vocês se conheceram?

Ana Raquel Santos da Trindade — Eu trabalhava com massagens tântricas. É um tipo de massagem que trabalha com a energia sexual da pessoa. Infelizmente, muita gente confunde com prostituição, mas não é. O Renato entrou em contato comigo para trabalhar com ele em Curitiba, disse que estava montando uma nova equipe por lá. Ele foi me buscar na rodoviária e, depois, sumiu por uns três dias. Quando ele voltou, primeiro, disse que ia fazer uma massagem em mim. E confiei, em princípio, ele era o meu chefe. Não imaginava que ele estava drogado e que eu seria estuprada. Fui dopada, trancada no quarto, lembro dele em cima de mim tendo relações comigo. E ele não era o único. Várias vezes, ele trazia alguns amigos que pagavam para ele para ter relações comigo. Eu estava fraca demais para conseguir reagir.

RBS  — Você não tentou fugir?

Ana — Ele me ameaçava. Ameaçava matar a minha família, o meu filho. Várias vezes, pedi para me matar, mas ele dizia que eu estava dando lucros para ele. Quando eu me comportava, ele deixava eu ligar para o meu filho uma vez por dia e mandava eu entrar no Facebook e colocar alguma coisa para as pessoas acharem que eu estava bem. Tudo monitorado por ele. Passei a colaborar. Eu era a escrava sexual dele. Então, ele fez eu me relacionar com ele ou mataria o meu filho.

RBS — Por que ele fazia isso com você?

Ana — Ele achou um jeito fácil de ganhar dinheiro: fazer as terapeutas sexuais, como nós chamamos quem trabalha com massagem tântrica, se prostituírem. Eu não aceitava isso. Como eu sabia que ele estava metido com isso, ficava me ameaçando. Via ele enrolar as terapeutas. Ele manipulava as pessoas. Elas tinham de fazer as massagens, e ele começava a segurar o dinheiro, só entregava se elas fizessem programas.

RBS  — Você teve de se prostituir outras vezes?

Ana — Teve uma vez que ele me vendeu por R$ 3 mil. Cheguei no hotel, e o cliente já estava esperando. Disse que queria o serviço porque eu estava sendo bem paga. Comecei a chorar e acabei comovendo o cliente.

RBS  — Por que você resolveu comprar uma arma?

Ana — Uma semana antes do meu aniversário, em outubro, ele quebrou a chapa de ferro do portão da minha casa e entrou por baixo dele. Fazia cinco minutos que eu tinha colocado o meu filho na van da escola. O Renato achou que eu estava com o meu namorado em casa. Quando vi, ele tinha arrombado a porta e estava apontando a arma para mim. Me joguei no chão. Ele estava transtornado, foi pela casa inteira, mas o meu namorado não estava lá. Cinco dias depois, consegui a arma.

RBS — A sua mãe falou que você comprou a arma porque pretendia se matar. Era essa a sua intenção?

Ana — Eu já tinha tentado me matar várias vezes. Não aguentava mais o que estava acontecendo, viver sempre com medo. Tentei tomar remédios, cortar os pulsos. Não queria viver trancada dentro de casa com ele me ameaçando. Mas acho que não teria coragem de me matar com uma arma. O que eu queria com ela era me defender. Porque, a maior parte das vezes, ele ameaçava o meu filho para eu ir para a cama com ele, e duas vezes tentou me esfaquear na frente do meu filho.

RBS  — Você sabia manusear uma arma, tinha feito alguma aula de tiro?

Ana — Nunca.

RBS  — E como você acabou atirando nele?

Ana — Ele chegou na minha casa e já perguntou pelo meu filho. Eu disse que ele não estava. Ele começou a se masturbar e veio para cima de mim. Eu disse que não queria e que tinha nojo dele. Ele botou o dedo na minha cara e disse que ia me matar, mas que, antes, ia matar o meu filho e o meu namorado, porque queria me ver sofrer. Eu guardava a arma embaixo do colchão. Eu não tinha intenção de atirar. Mas ele veio para cima de mim, e eu atirei.

RBS — Foram 12 tiros. Por que tantos disparos?

Ana — Eu nunca tinha atirado na minha vida. Dei o primeiro tiro, e ele saiu correndo, então, comecei a atirar sem parar. Muitos questionam por que recarreguei a arma, mas, se não tivesse recarregado, quem estaria morta agora seria eu.

RBS — A sua intenção era matá-lo?

Ana — Na hora, veio na minha cabeça tudo o que eu passei, toda a raiva do que ele estava fazendo para mim por quase dois anos. Porque não fui estuprada só uma vez. Ele me deixou presa em um quarto, me amarrou, me drogou, fui um tipo de escrava sexual dele. Na minha cabeça, não imaginava que ele ia morrer. Fiquei paralisada, chamei a polícia.

RBS — E quando você soube que ele morreu?

Ana — Eu estava na cadeia. Foi meu irmão que me contou. Foi um alívio, mas ainda estou com medo. Às vezes, parece que ele vai entrar na minha casa de novo. Estou respondendo em liberdade, mas estou com medo. Ele tinha colocado capangas atrás de mim. Ainda tenho medo, por mim e pelo meu filho.

RBS  — Você saiu aplaudida da prisão. Por quê?

Ana — Como dizem, eu balancei a cadeia. As presas gritavam, aplaudiam sem parar. Tanto quando eu cheguei quanto quando eu saí. Na prisão, conheci uma mulher de Curitiba que conhecia o Renato e contou que viveu a mesma história e que outras mulheres também tinham sido vítimas dele.

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