PCC quer dominar o tráfico nas ruas de SC, afirma promotor paulista que investiga a facção criminosa - Polícia - Hora

Entevista06/01/2017 | 13h35Atualizada em 06/01/2017 | 15h35

PCC quer dominar o tráfico nas ruas de SC, afirma promotor paulista que investiga a facção criminosa

Lincoln Gakiya diz que, fora do eixo Norte/Nordeste, o Estado catarinense é o que mais preocupa por conta das mortes em Amazonas e Roraima

PCC quer dominar o tráfico nas ruas de SC, afirma promotor paulista que investiga a facção criminosa Reprodução / Facebook/Facebook
Lincoln Gakiya, promotor do Gaeco de Presidente Prudente (SP) Foto: Reprodução / Facebook / Facebook

O promotor Lincoln Gakiya é um dos principais conhecedores da atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no país. Lotado no Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) de Presidente Prudente, em São Paulo, considerado o principal núcleo de monitoramento da facção, admite que o grupo criminoso tenta dominar as vendas de drogas em Santa Catarina. Por isso, nos últimos anos, o PCC passou a enfrentar nas ruas e dentro das unidades prisionais catarinenses o Primeiro Grupo Catarinense (PGC), maior facção do Estado atualmente. Em entrevista ao DC na manhã desta sexta-feira, o promotor admite que o enfrentamento entre os dois grupos pode gerar efeito nas cidades, além do impacto nos presídios e penitenciárias.

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Gakiya atendeu a reportagem pouco tempo depois que o governo de Roraima admitiu a morte de 33 detentos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc), o que segundo a Secretaria de Justiça local ocorreu como retaliação do PCC às mortes de 56 presos em Manaus no começo dessa semana, quando a facção Família do Norte (FDN) executou integrantes do grupo paulista.

Assim como o FDN, o PGC também é apoiado pelo Comando Vermelho (CV), organização criminosa que declarou guerra ao PCC em 2015. Por isso, segundo Gakiya, hoje Santa Catarina é o único Estado fora do eixo Norte/Nordeste que está em estado de atenção por conta das mortes nos presídios de Amazonas e Roraima. No começo dessa semana, o secretário-adjunto de Justiça e Cidadania de SC, Leandro Lima, disse que o Estado está em condição de atenção. Afirmou que a separação de presos é importante para evitar confrontos.

Leia abaixo a entrevista completa do promotor:

O que o senhor tem de informação sobre o PCC com Santa Catarina?
Realmente, uma das facções que mais rivaliza com o PCC é o PGC de Santa Catarina. Inclusive, quando o PCC soltou um salve explicitando os motivos de guerra em relação ao Comando Vermelho (CV), um dos itens que eles faziam referência era o fato de o Comando Vermelho ter se unido a inimigos do PCC como o PGC, a Família do Norte (FDN) e o Bonde dos 40 (Nordeste). Realmente aí a situação é bastante acirrada. O PCC quer entrar, mas não tem domínio em Santa Catarina. Inclusive, me parece que ocorreram algumas mortes na rua, envolvendo integrante do PGC e do PCC. Eles dizem que tomaram um morro em Santa Catarina e há sempre um plano deles em tomar Florianópolis. Tem locais em que eles já estão mais fortes...

Que é o caso de Joinville, por exemplo?
Exatamente. E em Santa Catarina entendemos que é um local estratégico para o PCC por conta dos portos. Tivemos prisões de integrantes em Itajaí. Um integrante do PCC que era apontado como responsável por mortes de policiais militares. Ele estava radicado na cidade e financiando um time de futebol de Itajaí. No caso das prisões eles já conseguiram ir para uma cadeia mais favorável. Nos últimos dois anos foram pedindo remoções para uma cadeia onde não corriam perigo, parece que agora estão em um local só. Quando o PCC já tinha essa estratégia de dominação e hegemonia nacional do tráfico, para que eles não fossem mortos nos locais onde são minoria, como no Amazonas, passaram a ir para presídios únicos onde pelo menos fossem maioria para a partir daí fazerem coisas na rua, senão eles certamente teriam retaliações. Então em Santa Catarina essa parte interna eles resolveram, mas ainda não têm poder e fogo para poder tomar fora, principalmente Florianópolis. Mas é a intenção, já detectamos vários planos deles, pegamos armamentos saindo de São Paulo que seria para mandar a Santa Catarina. Temos contato com a polícia de Santa Catarina, então essa é a situação de momento.

A intenção do PCC hoje, então, é se expandir mais para as ruas?
Exatamente. Se expandir para as ruas, tomar o tráfico de Santa Catarina, que é do PGC.

Por que o PCC quer se expandir em SC?
Acho que são vários os motivos. Primeiro a questão turística, mas me parece que a questão logística de ter vários portos, acho que seria importante para a PCC porque eles usam esse canal para mandar droga para a Europa. E a partir desses portos eles conseguiriam fazer isso com mais facilidade porque fazem a partir de contêineres. Eles fazem cooptação de algum funcionário para inserir mochilas em algum contêiner, que no Brasil são vistoriados por amostragem. E na Europa e na África eles têm alguém associado e alguma máfia que coloca essa droga lá. Eles (PCC) têm essa preocupação de expansão de lucro, porque na Europa ela é mais vantajosa para a facção.

Depois dessa situação em Manaus, SC também é um estado que fica em alerta?
Sem sombra de dúvida. Entre os Estados que estão em situação de alerta temos o Amazonas, Acre, Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima e Santa Catarina. Porque essas facções locais, inclusive o PGC, não seriam problema isoladamente para o PCC, mas aliadas ao Comando Vermelho elas rivalizam em número, às vezes têm poder bélico melhor. Acho que isso que o CV também percebeu, que teria que se aliar para impedir esse domínio do PCC. Essa é uma guerra que ainda vai ter outros capítulos.

O senhor acha, então, que depois desses fatos de Manaus e Roraima, podemos ter outras situações?
Com certeza. Toda ação tem uma reação. Imediatamente, nos Estados onde há a presença do FDN, eles (PCC) vão buscar uma retaliação. Os dois Estados que o FDN domina são Amazonas e Roraima. São regiões estratégicas por conta da fronteira. Então tudo isso faz parte de um plano de dominação. Por isso, obviamente, vai haver resistência.

Então Santa Catarina faz parte desse plano de dominação do PCC?
Com certeza.

Com essa guerra atual, o que o governo federal e os governos estaduais precisam fazer para contê-la?
Seriam várias ações, a resposta é complexa. Mas imediatamente teria que separar esses integrantes de facções rivais onde eles tenham contato. E quando digo isso, não é que tem que criar presídios para cada facção. Na verdade, a lei de execução penal já prevê que os presos sejam separados por periculosidade. Então você tem, por exemplo lá no Amazonas, duas facções que já haviam declarado guerra, é a mesma coisa que você colocar presos do PGC no mesmo raio que o pessoal do PCC. Aí vamos ter problema, tanto que aí (em SC) eles estão separados. Se eles tiverem contato, vai haver uma carnificina. Então, imediatamente, dentro dos presídios, tem que haver essa separação. Agora a questão de combate à organização criminosa tem que ser permanente. Cada Estado tem que implantar seus métodos de monitoramento, e a gente precisa ter um meio de comunicação com o governo federal e os Estados que seja rápido e seguro para compartilhar as informações. Todos poderes precisam participar dessa discussão.

Quando se trata de confronto dentro da unidade prisional, apesar de graves, a população compreende por ser algo localizado. Mas quando vai para as ruas, como pode acontecer em Santa Catarina, a população fica amedrontada. A gente pode ter aqui, então, se não for combatido, algo que perpassa o limite das unidades prisionais?
Com certeza. Não só aí, mas no Brasil como todo. Não tenho dúvida, porque entendo que o trabalho de combate não se limita aos muros do presídios. Então você tem que mapear, sei que Santa Catarina tem feito isso em relação ao PGC. Estive aí várias vazes ano passado, foi a um seminário e o pessoal tem feito um trabalho muito bom de monitoramento da facção com identificação de presos. E isso tem que ser um trabalho contínuo. Se for atacada a questão financeira dessas organizações, que é basicamente o tráfico de drogas, isso vai enfraquecer a organização. Também a entrada de bandidos estrangeiros tem que ser monitorada porque isso acaba respingando na população.

Essa disputa PCC e PGC tem a ver um confronto territorial fora do país para a produção de drogas?
Acho que no caso de SC é para tomar o Estado que estrategicamente é interessante para o PCC. Na verdade eles querem todos. Alguns dos Estados eles não têm a maioria, um deles é Santa Catarina. Então a estratégia do PCC é batizar, tentar cooptar novos integrantes. Com relação à disputa externa, não acredito. O panorama para o CV e PCC fora do Brasil ainda é precário. Eles compram lá mas não conseguem tomar aquilo porque a realidade é distante, formada por máfias. E eles dominam. Agora o que é certo é que o Jarvis Pavão (narcotraficante preso no Paraguai) tem ligações com Santa Catarina. Ele tem contato aí. E ele era mais ligado ao CV e fornece drogas para o PGC. Então isso tudo tem que ser analisado, mas não tenho nenhuma informação concreta, mas é o que a gente acaba percebendo.

 
 
 

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