Cerca de 70 pessoas protestam contra a transfobia em Florianópolis, após morte de mulher transexual - Polícia - Hora

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Preconceito de gênero11/03/2017 | 14h03Atualizada em 11/03/2017 | 14h35

Cerca de 70 pessoas protestam contra a transfobia em Florianópolis, após morte de mulher transexual

Manifestação aconteceu nos Ingleses, onde o corpo da vendedora Jennifer Célia Henrique foi encontrado na sexta-feira

Cerca de 70 pessoas protestam contra a transfobia em Florianópolis, após morte de mulher transexual Leo Munhoz/Agencia RBS
Manifestantes pediram o fim das fobias contra a população LGBTTT Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

A vendedora Jennifer Célia Henrique, 37 anos, morta a pauladas nos Ingleses no final da semana foi sepultada na manhã deste sábado, 11, no cemitério do Santinho, no Norte da Ilha de Santa Catarina. Depois do enterro, familiares, amigos e moradores do bairro de Florianópolis seguiram para um protesto na SC-403, exatamente em frente a um prédio abandonado onde o corpo da mulher transexual foi encontrado. Além de caracterizarem a transfobia (preconceito contra pessoas trans) como a motivação do assassinato, os cerca de 70 participantes pedem Justiça e mais segurança na região. 

Joice da Rosa Silveira ainda estava inconformada com a morte da amiga. Ela lembra que Jenni, como a mulher era conhecida, era querida por todos. Exatamente por esse motivo, nem mesmo as pessoas mais próximas dela possuem suspeito para o crime. 

— Não existia pessoa ruim para a Jenni. Ela cumprimentava com beijo todos que via na rua. Então ela não tinha medo, porque conhecia todo mundo — diz, ainda bastante emocionada. 

Conforme o jornal Hora de Santa Catarina, Jennifer havia registrado dois boletins de ocorrência em delegacias de polícia da capital, onde relatava ter sido vítima de injúria, homofobia e agressão. A reportagem ainda afirma que o delegado especializado em Homicídios, Ênio de Mattos, sequer se referia à Jennifer como mulher, afirmando repetidas vezes tratar-se de um homem. 

Na condição de pessoa trans, Vulcânica, 23 anos, que também participou do protesto, reforça a importância de tratar o caso como uma morte ocasionada por transfobia. 

— A nossa vivência é sempre desconfigurada, descaracterizada pelos outros. Nós existimos. Somos pessoas trans, sofremos transfobia e estamos morrendo todos os dias — afirma. 

Vulcânica segurando o cartaz que lembra as mortes na capital somente em 2017 Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Uma das organizadoras da manifestação, a ativista Selma Light acrescenta que, desde o Carnaval, oito pessoas trans foram mortas no Brasil. Ela lamenta a desproteção enfrentada pela população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgênero (LGBTTT). 

— O que mais dói é a atitude da Justiça. O delegado falando essa atrocidades [que a motivação do assassinato da transexual "foi uma transa mal acertada", conforme revelou o Hora], negando o crime por ser prostituta, transexual ou por estar em local perigoso. É inadmissível que ele justifique o crime. Nós estamos desprotegidas, porque a transfobia é mascarada em outros crimes e não há punição — lamenta. 

Selma Light conduziu a manifestação Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Para pressionar a investigação policial e decorrente punição, os manifestantes seguiram até a 8ª Delegacia de Polícia Civil. A impunidade também foi lembrada pelo vereador de Florianópolis Tiago Silva (PMDB), que mencionou os mais de 25 anos do caso Norton como exemplo para ilustrar a falta de uma lei que criminalize o as fobias de gênero e de sexualidade. 

— Nós precisamos de uma fundamentação para mudar esse contexto de ódio, que só aumenta, a exemplo da Lei Maria da Penha e do Estatuto da Criança e do Adolescente — defende. 

Especialista em gênero e diversidade na escola, Aparecida Takigawa também cobrou esclarecimentos sobre o assassinato. 

— A imputabilidade nesse caso é um crime de Estado. Não podemos silenciar. 

Participantes garantiram de reafirmar a transfobia envolvida no crime Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Moradores também pedem mais segurança

A Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade (Adeh), o LGBT Florianópolis e o Coletivo Margens, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), participaram da manifestação, que também contou com a presença de moradores locais. Vilma Gomes Pinho questionou a situação da construção onde o corpo de Jennifer foi encontrado pela Polícia. 

— Moro há mais de 13 anos aqui e esse prédio sempre esteve desativado. Podiam ter construído até uma UPA [Unidade de Pronto Atendimento] ali, mas a insegurança em torno só aumenta — relata. 

Quem era Jenni

Nas redes sociais, onde a morte de Jenni tem enorme repercussão, amigos e familiares da vítima afirmam que o assassinato teve motivações preconceituosas, intolerantes e de transfobia. 

Ela tinha forte atuação em movimentos de causas de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT), além de ser muito conhecida em Ingleses e Santinho, onde morava com seus pais. Jenni trabalhava como revendedora de uma marca de cosméticos.

Um dos principais nomes do movimento LGBT e trans do país, o cartunista Laerte Coutinho publicou em seu Facebook sobre a morte de Jenni: "Assassinam. Nos assassinam".

 
 
 

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