Chacina de Canasvieiras completa um mês e a investigação não tem conclusões sobre o motivo - Polícia - Hora

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Ainda sem respostas06/08/2018 | 07h12Atualizada em 06/08/2018 | 13h18

Chacina de Canasvieiras completa um mês e a investigação não tem conclusões sobre o motivo

A palavra "trabalho" é a mais ouvida da boca de diferentes delegados da Polícia Civil catarinense

Chacina de Canasvieiras completa um mês e a investigação não tem conclusões sobre o motivo Tiago Ghizoni/Hora de Santa Catarina
O prédio do apart-hotel Venice Beach, com 18 unidades e cobertura, está em nome da empresa KGL Administração de Bens e Participações Ltda, cujos sócios eram Kátia Gaspar Lemos e seu irmão Leandro Foto: Tiago Ghizoni / Hora de Santa Catarina

Um mês após cinco pessoas serem mortas dentro de um apart-hotel em Canasvieiras, no norte da Ilha, sobram perguntas sem respostas na investigação comandada pela Delegacia de Homicídios da Capital. O caso é tratado com sigilo pelos policiais, que temem prejudicar os trabalhos com o eventual vazamento de informações. A palavra "trabalho" é a mais ouvida da boca de diferentes delegados da Polícia Civil catarinense. Até quando algum detalhe do ocorrido vem à tona, a informação parece só embaralhar ainda mais a extensa lista de possibilidades que podem ter motivado o assassinato de Paulo, Junior, Leandro e Kátia Gaspar Lemos, além de Ricardo Lora, conhecido como Alemão, que era gerente do apart-hotel e sócio de Leandro em um negócio que não prosperou.

O detalhe em questão é a maneira como a única sobrevivente da chacina – uma camareira do hotel – foi amarrada pelos três homens que entraram no estabelecimento por volta de 16h do dia 5 de julho. A mulher, única testemunha da chacina sem tiros – todos morreram asfixiados -, não se encontrava no apart quando da entrada dos criminosos no local. Ela chegou depois, junto com Kátia Gaspar Lemos, 50 anos, no carro da filha do patriarca. As duas só desceram do veículo na garagem do hotel, onde foram rendidas por um dos criminosos. A testemunha foi separada de Kátia.

Também amarrada, o nó dado pelos bandidos na camareira era diferente de todos os demais, revela o delegado Ênio Mattos, titular da Delegacia de Homicídios. Para Mattos, seria um nó mais fácil de desamarrar ou soltar. O motivo? Mesmo que a polícia saiba, não fala. Sobre eventuais suspeitos, também o silêncio. Extraoficialmente, a camareira teria dito aos policiais que não conseguiria reconhecer nenhum dos autores, já que esses estavam com os rostos cobertos.

Diretor de polícia da Região Metropolitana, o delegado Verdi Furlanetto, diz que as investigações estão avançadas, mas não lista nenhum argumento que justifique tanto. Promete, contudo, novidades num horizonte próximo.

– Estamos trabalhando firme nisso.Laudos periciais importantes como cadavérico, de local de crime e eventual resultado de digitais, ainda não foram concluídos pelo Instituto Geral de Perícias (IGP).

Perícia nos celulares

O Instituto de Criminalística vai periciar dois telefones celulares apreendidos dentro do apart-hotel Venice Beach. Os aparelhos não estavam juntos de nenhuma das vítimas, mas foram encontrados no interior do prédio de quatro andares. O pedido de perícia nos celulares partiu da Polícia Civil, que não fornece detalhes da investigação, mas encaminhou os aparelhos ao IGP.

Nenhuma das cinco vítimas estava com telefone celular. A suspeita é de que os criminosos, pelo menos três homens que entraram no apart-hotel com máscaras e luvas, tenham levado os celulares das pessoas mortas, assim como os registros das câmeras de monitoramento do estabelecimento.

A solicitação da Polícia Civil ao Instituto de Criminalística, um dos braços do IGP, não especifica qual a suspeita de relação dos aparelhos com o caso, pois oficialmente ainda não é possível definir se eles pertenciam a alguma das vítimas, a funcionários do apart-hotel ou aos autores da chacina.

Nos bastidores da investigação, existe a expectativa que um dos celulares pertencesse a Leandro Gaspar Lemos, o Magal, de 44 anos, que era o filho caçula de Paulo Gaspar Lemos. Se a suspeita se confirmar, os registros do aparelho podem trazer novas pistas ao trabalho policial sobre eventual motivação para o crime.

Tanto a Polícia Civil como o IGP não darão detalhes do resultado da perícia nos aparelhos celulares. O IGP, contudo, garante que o trabalho não foi concluído.

Cenário da chacina está alienado a banco e em vias de ser leiloado

O prédio do apart-hotel Venice Beach, com 18 unidades e cobertura, está em nome da empresa KGL Administração de Bens e Participações Ltda, cujos sócios eram Kátia Gaspar Lemos – que empresta as iniciais do nome à empresa – e seu irmão Leandro Gaspar Lemos. A empresa, com cadastro ativo, foi fundada em 2006 e suas atividades são holdings de instituições não-financeiras e gestão e administração de propriedade imobiliária.

O imóvel, como todos os outros bens da família Gaspar Lemos, está penhorado devido a dívidas que ultrapassam R$ 300 milhões, de acordo com os tribunais de Justiça de São Paulo e Santa Catarina, bem como cadastros de dívida ativa na União e em São Paulo. Somente para a Fiat, empresa que emprestava a bandeira para as sete revendas autorizadas da marca italiana que os Gaspar Lemos chegaram a ter em SP até 2010, a família tinha penhoras que beiravam os R$ 50 milhões. A Fiat não respondeu perguntas da reportagem.

Em outubro do ano passado, um edital foi colocado na praça para leiloar o prédio do Venice Beach devido a dívidas trabalhistas com trâmite na 7ª Vara do Trabalho de Florianópolis. Alienado fiduciariamente ao Banco BVA, e avaliado em R$ 5,4 milhões, ninguém arrematou o imóvel naquele leilão. Não há ainda data definida para o prédio ir novamente a leilão.

Em 2002, patriarca da família foi sequestrado em SP

Um fato determinante para que a família Gaspar Lemos se mudasse para Florianópolis no início dos anos 2000 foi o sequestro sofrido pelo patriarca, Paulo Gaspar Lemos, em São Paulo, em agosto de 2002. Paulo, que à época tinha 61 anos, permaneceu quatro dias em um cativeiro em uma favela de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo.Ele foi libertado sem a necessidade de pagar resgate, pois a polícia estourou o cativeiro após interceptar as ligações entre os criminosos e familiares de outro homem que era mantido refém pela mesma quadrilha. 

Este homem, também empresário, mas mais jovem que Paulo Gaspar Lemos, ficou em cativeiro 25 dias e sua família pagou R$ 200 mil de resgate.Após Paulo e o homem serem libertados, ambos se tornaram amigos, já que sem saber eram vizinhos na zona sul. Tanto que depois do trauma, os dois decidiram se mudar para Florianópolis e adquiriram propriedades no mesmo bairro: Jurerê Internacional.

A reportagem conversou com o empresário paulistano, vizinho dos Gaspar Lemos no bairro Bosque da Saúde, na zona sul de São Paulo, mas ele pediu para não ser identificado. Afirmou, porém, que as famílias vieram quase simultaneamente para Florianópolis. Ao longo dos anos, porém, perdera contato com Paulo. Só voltou a ouvir falar deles quando os noticiários informaram a morte de quatro integrantes da família na manhã de 6 de julho.

Entenda o caso

Cinco pessoas foram assassinadas dentro do apart-hotel Venice Beach, na rua Doutor José Bahia Bittencourt, há 100 metros do mar de Canasvieiras, quase a meia-noite de 5 de julho. O caso veio à tona nas primeiras horas do dia seguinte. Foram mortos por asfixia Paulo Gaspar Lemos, 77 anos, Paulo Gaspar Lemos Junior, 51, Kátia Gaspar Lemos, 50, Leandro Gaspar Lemos, 44, e Ricardo Lora, 39 anos. Segundo a polícia, os assassinos, três homens que entraram no hotel por volta de 16h permaneceram no local até perto da meia-noite, depois de submeterem as vítimas a intensa tortura psicológica.


 

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