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Mapa da Violência14/11/2018 | 05h42Atualizada em 14/11/2018 | 06h59

Norte da Ilha lidera número de mortes violentas em Florianópolis

Dos 112 casos registrados até terça-feira (13), 43 aconteceram na região

Norte da Ilha lidera número de mortes violentas em Florianópolis Arte/Hora de Santa Catarina
Foto: Arte / Hora de Santa Catarina

 Entre 30 de setembro e 7 de outubro deste ano, dois homens foram executados nas dunas da Praia dos Ingleses, em Florianópolis. A violência das mortes, em um dos principais balneários da Capital, ilustra os assassinatos no norte da Ilha, região mais violenta da cidade em 2018, com 43 das 112 mortes violentas mapeadas pela reportagem de 1º de janeiro a 14 de novembro deste ano.

O número, 38,4% do total de homicídios, mortes em intervenções policiais, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, abrange as áreas das 8ª e 7ª delegacias de polícia, nos bairros de Ingleses e Canasvieiras, áreas nobres de Florianópolis. Rodeadas, no entanto, por comunidades carentes e conflagradas como o Morro do Mosquito, o Siri, o Papaquara e a Vila União, onde aconteceu a maior parte dos assassinatos em 2018.

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À frente da Delegacia de Homicídios da Capital há 10 anos, o delegado Ênio de Oliveira Matos, que comanda mais de uma centena de investigações, viu a criminalidade aumentar no norte da Ilha em especial a partir de 2017 – ano que Florianópolis teve mais de 170 assassinatos, um recorde na história recente.

Isso ocorreu, segundo Matos, quando uma facção criminosa de São Paulo começou a disputar e a ganhar terreno de uma facção catarinense pelos lucrativos pontos de vendas de drogas.

— Essas mortes lá na região (norte da Ilha) aumentaram por causa das facções criminosas. Era um movimento que já estava acontecendo, mas em 2017, depois da vinda da facção paulista, explodiu — avalia o delegado Ênio Matos.

A disputa pelo lucro do tráfico, em uma região turística e com dinheiro circulando, trouxe a reboque os assassinatos e execuções. Tanto que em 2017, apenas no norte da Ilha, foram 75 mortes violentas, mais do que todos os assassinatos em toda Capital em 2015, quando foram registrados 62 casos.

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Um ano depois, em 2016, Florianópolis inteira teve 92 assassinatos. Naquele ano, a região com mais mortes violentas eram as delegacias de área de Capoeiras e Coqueiros, que englobam as comunidades do Monte Cristo, Vila Aparecida e Morro da Caixa, entre outras. Até novembro de 2016, a região continental tinha registros de 23 assassinatos – de um total de 79 mortes violentas naqueles 11 meses.

 Norte da ilha eh o local mais violento de florianopolis pela segunda vez seguida. (Foto: Diorgenes Pandini/Diario Catarinense)Indexador: Diorgenes Pandini
Dunas dos Inglesas foi palco de dois crimes em oito diasFoto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

Os números de homicídios e de mortes em intervenções policiais em Florianópolis foram obtidos pela reportagem através do delegado Ênio Matos, cuja equipe investiga os casos. Repassados em 26 de outubro, na ocasião com 106 assassinatos, outros quatro homicídios posteriores entraram na lista.

Ao todo, além dessas 110 ocorrências de homicídios e mortes em intervenções policiais, a reportagem mapeou mais um latrocínio — na Via Expressa Sul (área do 2º DP) — e uma lesão corporal seguida de morte — no Córrego Grande (área do 5º DP).

Os números oficiais da Secretaria de Segurança Pública (SSP), porém, somam 115 mortes violentas. Em três delas, dois homicídios e uma morte em intervenção policial, a reportagem não identificou a região da cidade em que os crimes aconteceram.

Em um ano, promotorias do Júri ofereceram 87 denúncias na Capital

Duas promotorias — a 36ª e 37ª — são responsáveis por levar casos de homicídios e tentativas de homicídio para julgamento perante o Tribunal do Júri, que julga crimes contra a vida, consumados e tentados. Entre 9 de novembro de 2017 e 9 de novembro deste ano, as promotorias ofereceram 87 denúncias criminais, sendo que em 18 dessas os promotores ofertaram denúncias correlatas de organização criminosa e tráfico de drogas.

O promotor Afonso Ghizzo Neto, titular da 36° Promotoria da Capital, afirma que o elevado número de mortes violentas no norte da Ilha está diretamente relacionado à disputa por espaço entre as facções criminosas, porque houve um acirramento e os bandidos “trabalham em parceria com organizações criminosas de outros estados e até do exterior”. Ele cita parcerias entre a facção catarinense e uma facção famosa do Rio de Janeiro, bem como conexões no Paraguai e na Bolívia.

— É um grande negócio, que está profissionalizado. Hoje, viraram grandes empresas, que acabam limpando esse dinheiro em atividades lícitas e criando parcerias na iniciativa privada e por vezes até na política — avalia Ghizzo Neto.

O promotor aponta três pontos que considera fomentadores da violência na região: avanço de organizações criminosas rivais, falhas no sistema prisional e ocupação massiva de criminosos em regiões vulneráveis — onde o braço estatal encontra dificuldades para instalar-se.

Sobre as maiores dificuldades em sentenciar ocorrências contra a vida em Florianópolis, o promotor cita a ausência de autoria do crime e, principalmente, a lei do silêncio que impera nas comunidades mais pobres. A média de absolvição, “por cima”, conta, é de 35%. 

Na dúvida, destaca, “eu peço a absolvição”, pois “não tenho como pedir uma condenação sem provas”.

— Muitas vezes a testemunha até fala na fase de inquérito, mas depois diz não saber, não lembrar, e isso prejudica a instrução do processo — explica, para dizer que 80% das mortes violentas na Capital são “entre eles próprios (traficantes) e entre organizações adversárias”.

Um exemplo citado é a sequência de assassinatos (de 2015 a 2017) entre ex-parceiros do tráfico de drogas na Costeira do Pirajubaé, lucrativo ponto de tráfico da Capital em que as lideranças racharam.

Nativos do norte da Ilha dizem que a vida mudou na região

 Norte da ilha eh o local mais violento de florianopolis pela segunda vez seguida. Orivaldo Alvim Henrique. (Foto: Diorgenes Pandini/Diario Catarinense)Indexador: Diorgenes Pandini
Nativo da região, seu Orivaldo perdeu a filhaFoto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

Aos 76 anos, natural do Santinho, Orivaldo Alvim Henrique, o Vadinho, já gostou mais de morar no bairro onde nasceu e se criou. Hoje, um ano e oito meses depois de perder a filha assassinada, se diz cansado da região.

A vida, dele e da esposa, nunca mais foi a mesma depois da morte de Jennifer Celia Henrique, a Jenni, transexual morta a pauladas em uma construção de Ingleses em março de 2017. Para ele, que ainda conserva o muro de casa baixo, como era comum há décadas, “os bairros daqui do norte cresceram muito, veio muita gente para cá”.

— Hoje não está fácil. Toda hora tem pescador que é assaltado quando está trabalhando na praia. Esse pessoal mais novato não respeita mais ninguém — diz Vadinho.

Na areia da Praia de Ingleses, vendendo comida, um homem de 53 anos, nativo da região, disse que não iria se identificar para “não correr o risco”. Questionado sobre qual seria o risco, apenas sinalizou com a mão como se estivesse disparando uma arma de fogo.

— Quem não é visto não é lembrado — resumiu.

Onde os crimes acontecem

Em 2018, na Capital, segundo levantamento da Delegacia de Homicídios que considerou os registros das delegacias de polícia dos bairros, as regiões que mais registraram mortes violentas estão na área de abrangência das DPs de Ingleses (25,9%), Capoeiras (17,9%), Saco dos Limões (17%), Canasvieiras (12,5%), Trindade (11,6%), Coqueiros (10,7%), Centro (3,5%) e Lagoa da Conceição (0,9%).

O que diz a SSP

O secretário de Segurança Pública de Santa Catarina, Alceu de Oliveira Pinto Junior, afirma que em 2018 a redução das mortes na Capital, na comparação com 2017, está calçada no trabalho de “sufoco” ao crime organizado nas comunidades, direcionando policiamento aos locais e “reduzindo bastante os índices não só de homicídio, mas de tráfico, furto e roubos também”.

— Saturação e sufoco foi a expressão que nós utilizamos para direcionar efetivo e conter os crimes nessas comunidades. Em paralelo, algumas ações de assistência social, que a gente chama de 80 por 20, que é 80% de polícia e 20% de assistência social. Mas em algumas comunidades, estamos invertendo, diminuindo a presença da polícia e aumentando a assistência social — diz.

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